O carrossel da serpente

Era o primeiro dia do colunista carioca Telmo Martino no Jornal da Tarde, aí por 1972, e motivos não lhe faltavam para estar pouco à vontade. Acabara de chegar a São Paulo, onde praticamente não tinha conhecidos; entrado nos 40 anos de idade, fora cair numa redação onde o próprio editor-chefe, Murilo Felisberto, mal passava dos 30; e enfrentava o estresse de qualquer primeiro dia de trabalho, em que você, ao sentar-se numa cadeira, tem a sensação de estar ocupando assento alheio. Foi para deixar o forasteiro à vontade que um editor o instalou a seu lado, na mesa onde diagramava uma página. Já de si afetado, o moço caprichava, bamboleando os longos cabelos louros, apenas um dos recursos de que lançou mão na tentativa de impressionar o recém-chegado. Como nenhum deles parecesse funcionar, sacou do nada esta declaração:

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2011 | 03h01

- Sabe, Telmo, eu gostaria mesmo é de ser uma puta internacional...

Ao que o outro sugeriu:

- Uê, viaja!

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A timidez não impediu que Telmo logo se tornasse uma sensação no mundinho jornalístico-artístico-social da Pauliceia. Por lhe faltar uma boa introdução, o livro Serpente encantadora, coletânea de textos de sua autoria publicada em 2004, não dá a medida do furor ateado pela prosa vitriólica do colunista - que no convívio, curiosamente, era mais encantador do que ofídico. Chocho quando elogiava, corroía ao fustigar suas antipatias. A coluna, que levava o seu nome, parecia um carrossel no qual giravam umas poucas, obsessivas personagens, talvez menos de cem, às quais se grudavam sempre os mesmos venenos. Fernando Henrique Cardoso, que admitira ter "um pé na cozinha", ia ao pelourinho como o "sénateur mulâtre". Caetano Veloso, como "o Mallarmé do afoxé, o Cocteau do agogô, o Rimbaud do bongô". Paraibana do interior, Elba Ramalho era "a vingança do agreste" ou "a frajola do flagelo".

O melhor de Telmo, porém, foram as "turmas" que ele delimitou e nomeou. Numa paisagem em que pululavam bichos-grilos, rótulos como "barba-e-bolsa" e "poncho-e-conga" dispensavam explicação. Uma colônia italiana endinheirada e melômana constituía o pessoal do "Scala-e-escarola". Paulo Maluf e outros descendentes de libaneses formavam o bando do "quibe-e-quilate", a um tempo glutão e exibido, e assim por diante.

Chega a espantar que Telmo Martino, em seus muitos anos de São Paulo, tenha levado apenas um troco em público - um chute no traseiro, desferido numa festa pelo poeta Mario Chamie.

*

Até mesmo com um colega de redação Telmo Martino tomou assinatura: o repórter de artes Olney Krüse, também conhecido pelas exposições de objetos kitsch que promovia. Ele próprio, aliás, parecia saído de uma de suas mostras, pois usava adereços como um anel cuja pedra era um teratológico olho de vidro, e cabelos que, ralos no alto e alvoroçados nas laterais, autorizavam pensar no palhaço Bozo. Já não me lembro qual das estocadas de Telmo Martino empurrou um dia para o ataque aquele doce camarada. O fato é que num fim de tarde Olney irrompeu na redação e, com inusual passo duro, tirou uma reta até a mesa do colunista, onde por uns segundos esteve a mirá-lo com uma ferocidade de que nem seu esbugalhado olho-anel seria capaz. Telmo já se preparara para uma bofetada, na melhor das hipóteses, quando Olney, num gesto rápido, se apossou de seus óculos, jogou-os no chão e os pisoteou, crash, crash, crash, antes de fazer meia volta e, triunfante, bater em retirada.

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Numa noite, houve um princípio de incêndio no Edifício Louvre, na Avenida São Luís, onde moravam dois colegas de Jornal da Tarde - Telmo Martino e o não menos carioca Claudio Bojunga. Nossa redação ficava ali perto e saí para ver o que se passava. Na calçada do Louvre, encontrei dezenas de apreensivos condôminos, sobraçando objetos de estimação ou valor pinçados no sufoco do salve-o-que-puder. Bojunga e a mulher, Martine, desceram com um faqueiro e o cachorrinho Empada. Quanto ao Telmo, entre as preciosidades que atravancavam seu apartamento de solteirão viajado, escolheu salvar das chamas... um cinzeiro - sim, um cinzeiro sem pedigree, no qual, em pé na calçada, indiferente ao nervosismo que crepitava em torno, ele ia batendo as cinzas de seu cigarro importado.

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