O carnaval é rito que libera, deseja, solta

As nuvens de palavras promovem uma reflexão sobre a festa que, até a publicação do meu livro Carnavais, malandros e heróis, em 1979, era um tema central entre alguns folcloristas e jornalistas, mas marginal no academicismo. A festa é repetição. É ritual no sentido mais freudiano do que sociológico. Em Freud, o rito tem componente obsessivo ou reiterativo, pois que se realiza regularmente para limpar a pessoa de algum ato culposo ou impuro. As palavras mostram essa dimensão. Tanto no Rio quanto em São Paulo, que - sem ofensa - inventou a indústria, mas seria uma coletividade a reboque do samba e do carnaval, são evocados um mesmo vocabulário.

Roberto Da Matta, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

Na minha interpretação, o carnaval se funda numa reversão do mundo ou numa inversão hierárquica. Aquilo que era marginal ao sistema, virava foco: malandros, mulheres, sexualidade, rua, escolha, individualismo, competição, pobres e máscaras e fantasias. A vida mudava de lugar: não era mais feita pelo poder, pela política, pelo letrados, mas por "escolas de samba" e marginais do mercado de trabalho. O discurso normativo, feito pelos políticos, virava samba, rima e irrealidade gozosa. Abolia-se o "você sabe com quem está falando?" porque as fantasias substituíam os uniformes e os papéis sociais desempenhados no cotidiano eram deslocados, suprimidos, recalcados e, assim, "invertidos".

Para mim, entretanto, o dado teórico mais importante do carnaval é o seu aspecto orgiástico. Um dado que a sociologia não tinha como discutir. Pois se a orgia tem a ver com a explosão erótica e com o vendaval dos sentidos, como isso pode ser coletivamente planejado? Haveria um elo entre revolta, revolução e carnaval? E a institucionalização do carnaval suprime a revolta porque essa é uma festa que a esvazia, trazendo à tona o recalcado? São questões que essas nuvens de palavras levantaram em mim.

Ressalto a última inversão. As nuvens são feitas de boas palavras! Não há palavrões ou palavras negativas. O carnaval não usa o verbo parar, mas os verbos da inclusão e do movimento: vem, ama, vai, vou. Na pátria onde o governo diz "não pode!" e o Estado manda parar, o carnaval libera, deseja, solta. Ele compensa os bloqueios do governo que roubam na seriedade e, hoje, em nome do povo. Seria, pergunta-me o sociólogo ingênuo, uma prova de que o vocabulário do povo é feito de palavras felizes? Não - diria eu - é o carnaval como rito, seu burro!

ANTROPÓLOGO

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