O bonde 14

Quando vejo, na TV, propaganda de caros aparelhos que fazem o corpo tremer, o traseiro rebolar e a banha derreter fico com a impressão de que chegamos a um modelo de sociedade em que vivemos sob a ilusão de que vamos para a frente ficando no mesmo lugar. O bonde já chacoalhava, com a vantagem de que ia pra frente, por muito menos: cinquenta centavos ou aquele passe amarelo da CMTC, que se podia comprar em cartela. Sacolejava-se à vontade. Ainda guardo um passe que sobrou do acervo de passes de minha mãe, esperando o bonde voltar. Vi o retorno do bonde em Roma, muito bom. Em Milão, senhoras de casaco de pele iam de bonde ao La Scala, para a ópera, quando lá estive. Em Amsterdã, o motorneiro parou o bonde bem na porta da casa em que ia me hospedar, para que desembarcasse e não me perdesse. A civilidade viajava de bonde.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2012 | 02h04

Aqui, também. O bonde 14, em 1961, era um bonde aberto, dos antigos, que nem as jardineiras da roça. Subia a Consolação, entrava na Rua Maria Antônia e seguia adiante até o fim da Avenida Higienópolis. Naquele tempo, rico ainda tomava bonde e pobre também, acotovelando-se uns nos outros. Os automóveis mal começavam a separar de fato as classes sociais, isolando os ricos e a classe média.

O último bonde voltava para a cidade pouco depois das dez horas da noite, para passar na frente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), no número 289, na hora em que terminassem as aulas dos cursos noturnos. O motorneiro sempre se adiantava, com segundas intenções. Parava bem na porta da Faculdade, travava o veículo e o largava ali. Ia para o bar do seu Antonio, na esquina da Rua Dr. Vila Nova, tomar um cafezinho, à espera dos estudantes que saíam atrasados. Sobretudo os do professor João Cunha Andrade, comunista e poeta, que se estendia além do horário em suas aulas de História da Filosofia, bajulando Sócrates e desancando Platão. Não ouvia o sinal. Ou se fingia de surdo, empolgado com as idéias de gente tão antiga, ditas para gente tão moça.

Na Xavier de Toledo, perto do Theatro Municipal, desciam os últimos passageiros. Vários de nós ainda tinham uma caminhada pela frente, para pegar outros bondes e ônibus para os bairros e o subúrbio, nos Correios ou no Parque Dom Pedro. Ainda dava tempo para um último bate papo e uma xícara pequena de chocolate quente na antiga Leiteria Americana.

Por ali, era frequente encontrar Lívio Xavier, colaborador semanal do Suplemento Literário do Estadão, que morava na frente. Ou Henrique L. Alves, meu conhecido, tradutor de autores poloneses para o Clube do Livro, de Mário Graciotti, autor de livros sobre poetas negros como Cruz e Souza e Batista Cepelos. Na Leiteria terminava cedo a boemia literária dos passageiros de bondes. As ruas da capital paulista ainda tinham um cheiro caipira de batata doce assada.

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