O blues como união entre duas gerações

Ben Harper e Charles Musselwhite falam sobre mistura que deve marcar apresentação da dupla no dia 20, no palco Sunset

BO EMERSON , THE NEW YORK TIMES , ATLANTA, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h09

Ben Harper, com 43 anos, já não é nenhum novato - mas com certeza é uma figura relativamente jovem no mundo do blues. Talvez por isso, ele, que nasceu na Califórnia, foi atraído pela ideia de tocar com gente da velha guarda, incluindo grandes nomes como John Lee Hooker, Solomon Burke e os Blind Boys do Alabama.

No universo das colaborações, Harper alia-se agora ao gigante da gaita, Charlie Musselwhite, de 69 anos. Juntos, gravaram Get Up!, um álbum de músicas despojadas que vão desde o estilo de Chicago ao country e ao gospel. Os dois se integram perfeitamente e a gravação demonstra a qualidade perene dessa música de raiz que de modo tão fácil reúne músicos de duas gerações diferentes - e que poderá ser vista no show que os dois artistas fazem juntos no Rock in Rio, no dia 20, no palco Sunset.

A turnê levou os dois músicos a se exibirem para plateias seletas, incluindo um espetáculo para o presidente Barack Obama durante um tributo que a Casa Branca fez à música de Memphis. Entre os músicos presentes estavam, além de Musselwhite e Harper, Steve Cropper, cuja guitarra pungente foi parte integrante do som da gravadora Stax e responsável pela criação e gravação de Dock of the Bay com Otis Redding, dias antes de o cantor de soul morrer num acidente de avião em 10/12/1967.

Cropper queria se assegurar de que Ben Harper reconheceria o talento de Musselwhite. "O Steve chegou, me encostou na parede e disse: você sabe que está trabalhando com um músico muito especial? Sabe o quanto ele é especial? E eu, claro, respondi: sim, senhor, eu sei", lembra ainda Harper.

Ainda assim, Musselwhite descarta o rótulo de "líder" da dupla, com uma resposta complacente: "Estamos no mesmo pé de igualdade. Aprendo muito com ele. Não tem essa de ser eu o cara que sabe tudo. Estamos no mesmo patamar".

Coração.Get Up! oscila da lembrança de um trabalho de Muddy Waters, como I'm Out and I'm Gone, ao Stomp de Led Zeppelin em I Don't Believe A Word You Say - passando também pelo som acústico básico de You Found Another Lover (I Lost Another Friend). A slide guitar é complementada pela gaita de Musselwhite que, com exceção dos números acústicos, divide o som dos dois como uma faca elétrica.

Os avós de Ben Harper administravam uma loja de discos e um espaço para shows, o Folk Music Center, em Claremont, na Califórnia - e Harper cresceu em meio às contracorrentes do blues, do folk e da música tradicional. "Eu disse a Ben que ele descobriu uma nova maneira de tocar esse repertório tradicional", disse Musselwhite. "Ele tem a lógica e o sentimento do tradicional, mas a roupagem é nova, fulgurante."

Mas Ben Harper não dá muita importância à sua origem mestiça (afro-americana, cherokee e lituana). "Não quero ficar preso na genética do blues", garantiu ele. "Se está dentro de você, tem de sair. É a única coisa que faz sentido. Você não consegue determinar. Não sei como o espírito do som nos invade, mas claramente isso é importante. É a linguagem de que qualquer ser humano necessita."

Musselwhite disse que fica surpreso com o modo como os músicos ligam suas origens ao blues, incluindo a cantora pop Cyndi Lauper, cuja música Girls Just Wanna Be Fun parece ter sido tirada da lama do Mississippi. Ele realizou uma turnê com Cyndi para promover o álbum de blues que ela gravou e se opôs ao conselho dos seus empresários. "Ela queria fazer um álbum de blues e seu empresário disse que isso iria deixar seu público confuso. Mas eu me diverti muito com ela."

Para ele, o blues "tem a ver com o coração". "Você sempre quer mais, precisa dele, é alimento para a alma. Podem haver outras razões para tocar, mas esse é um grande motivo."

Nascido no Mississippi, Musselwhite residiu um tempo em Memphis e em Chicago para depois se transferir para São Francisco, em 1967. Foi uma boa época. Ali ele se integrou no movimento de música nascente que combinava o novo e o velho. "Emissoras de rádio clandestinas tocavam tudo. Até gravações minhas!", brinca. "O movimento hippie estava aberto a tudo, o que influenciou a minha carreira." Tocar em salões de baile e festivais por toda a Costa Oeste foi "um enorme passo desde aquele barzinho na zona sul de Chicago, onde comecei".

Agora ele sente a mesma receptividade por parte do público que vai ouvi-lo tocando ao lado de Harper. "Gosto de ver os jovens querendo saber tudo sobre blues. Não sei se eles estão cada vez mais jovens ou se sou eu que estou ficando mais velho. Quando comecei, dificilmente alguém da minha idade ouvia blues. Era música de adultos. Hoje vejo uma garotada, adolescentes, fazendo perguntas. Querem conhecer a história. Ficam fascinados." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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