Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

O bloco dos 'forasteiros' ganha as ruas de São Paulo

Boom de grupos tornou capital ‘importadora’ – e não mais só exportadora – de foliões, sobretudo do interior paulista

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A farmacêutica Lisandra Ravanelli Pessa, de 31 anos, é o tipo de amiga que merece confete, serpentina, gratidão e até, convenhamos, cervejinhas. Ela, que mora com o noivo em um sobrado na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, “se mudou” na noite de sexta para o quartinho da empregada só para liberar o seu quarto e o de hóspedes para a trupe de foliões que vai hospedar. De “exportador” de foliões, São Paulo virou “importador”. Enquanto isso, Salvador, tradicional reduto de foliões paulistanos no carnaval, enfrenta desistências e crise nos abadás e “nas cordas”.

Os amigos de adolescência de Lisandra são três casais de Ribeirão Preto. Eles vieram para a capital paulista com um intenso e purpurinado objetivo: curtir ao máximo a folia das ruas. “Tivemos a ideia em novembro”, conta um dos hóspedes, o consultor de vendas Lucas Romero, de 31 anos. “Quando virou o ano, começamos a planejar tudo direitinho. Criamos no WhatsApp o grupo ‘Carnaval SP’ e passamos a definir quem ia comprar o quê, das fantasias à bebida.”

Na semana passada, é verdade, o aplicativo não parava de pular – ou sambar. Todo mundo com um comentário, uma expectativa, uma fantasia de carnaval. “Estamos muito animados, principalmente depois que vimos, pela mídia, como foi o pré-carnaval da semana passada”, disse Lucas à reportagem na tarde de quinta. 

Lisandra montou toda a operação. Providenciou colchão inflável para um dos casais, deixou outras duas camas à disposição. Foi à Rua 25 de Março e comprou diversos adereços. “Chapéus, máscaras, gravatas coloridas...”, enumera. E, claro, se encarregou de dar aquela pesquisada nos principais blocos para sugerir o roteiro.

De Taubaté, também no interior do Estado, a auxiliar administrativa Patricia Ketalin Nogueira Barbeta, de 28 anos, veio para São Paulo já no fim de semana anterior ao carnaval, com quatro amigos. “Fomos ao bloco Casa Comigo, depois à Praça Roosevelt, no dia seguinte curtimos o Gambiarra e, por último o Acadêmicos do Baixo Augusta”, recorda-se. 

“Não sei como aguentei a maratona. Tenho um joelho destruído, não tenho preparo físico para tudo isso, não”, comenta a auxiliar administrativa. “Mas consegui à base de muita água – e um pouco de álcool.” 

Ela pretende repetir a dose com uma saideira no próximo fim de semana, o penúltimo dos blocos de São Paulo. “Vai ser o pós-carnaval e com certeza estarei nas ruas da cidade”, planeja.

Saem gringos e o interior pede passagem

Muito procurados pelos jovens que só querem a folia, hostels paulistanos estão de casa cheia. De acordo com levantamento do Estado, entretanto, as acomodações registram uma diferença de perfil no período – saem os gringos, chegam os brasileiros de outras cidades. Se ao longo do ano 90% do público é formado por estrangeiros, na semana do carnaval a tendência se inverte e 90% são nacionais. A plataforma Airbnb, que intermedeia locações de imóveis, também registrou aumento para o feriado de carnaval em São Paulo. Dados divulgados pela empresa na semana passada mostravam um aumento de 187% no número de hóspedes na capital paulista no período – comparado ao ano passado. 

'É o que já foi o carnaval da Bahia'

Prova mesmo de que a folia paulistana tem conquistado cada vez mais forasteiros é que até gente de Salvador tem trocado os tradicionais trios elétricos soteropolitanos pela alegria desta terra. “O carnaval em São Paulo é o que já foi o carnaval da Bahia. O gostoso do carnaval em si, para mim, é essa coisa mais intimista, de ir para um bloco e encontrar amigos. Na Bahia, você vai a um bloco e é tão grande que você é um anônimo. E tem aquele apartheid – camarote, abadá pago”, conta o empresário Pedro Valente, de 38 anos, que já curtiu três blocos no pré-carnaval.

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Salvador vive crise do abadá e das cordas

Blocos tradicionais reduziram participação neste ano diante da falta de patrocínio e queda na venda de abadás. Bell Marques se mantém em alta

Cleusa Duarte, Especial para o Estado

27 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Com a festa já acontecendo em Salvador, o que se percebe é uma queda vertiginosa nas vendas dos abadás e a diminuição dos tradicionais blocos nas ruas. Para superar o problema, governo e prefeitura buscaram patrocínio privado. Segundo o governador, Rui Costa (PT), as atrações sem cordas foram viabilizadas por meio de articulações com empresas privadas. “São pouco mais de R$ 4 milhões que o Estado recebeu para o pagamento de artistas.”

Dos grandes e tradicionais blocos, o primeiro a anunciar que não sairia este ano foi o Cheiro de Amor. “Após décadas saindo nas ruas de Salvador, este ano, os blocos Cheiro e Yes se reservarão a um ano de descanso, motivado pela grave crise financeira que vivemos e as consequências dela. Colocar um bloco na rua se tornou um grande desafio, que a nossa estrutura não está confortável em encarar”, afirmou o empresário Windson Silva.

E até atrações bastante marcantes e responsáveis por esgotar blocos, como Claudia Leitte e Ivete Sangalo, se adequaram na folia 2017. O Cerveja e Cia, de Ivete, que sempre saiu três dias, este ano se limitou ao sábado. Ela reduziu, também, a programação do bloco Coruja. Já Claudia Leitte esteve só ontem no Bloco Largadinho – e repete a dose amanhã. O Olodum só sairá dois dias, enquanto o Nana Banana e o Araketu resolveram ficar fora do circuito. 

Superação na avenida. No meio da crise, o único artista popular que se mantém em alta é o cantor Bell Marques, campeão de vendas de abadás e único a pôr o bloco na rua todos os dias. 

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