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O beijo do beija-flor

Quem não viu? Com asas invisíveis de tão rápidas, ele se aproxima. Para. Introduz o bico no íntimo da flor. Retira o bico e vai beijar outra flor. Uma a uma, ele enche o pé florido de beijos. É assim que um beija-flor se alimenta. O beijo é um beijo de língua. E agora descobriram como usa a língua para coletar o néctar.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2015 | 02h02

Beija-flores gastam uma quantidade enorme de energia para voarem parados e essa energia vem do açúcar presente no néctar coletado em cada flor. Se eles demorarem para coletar cada gota de néctar, a energia presente no néctar é menor que a despendida pelo pássaro. E o beija-flor colapsa.

Faz décadas que se sabe que o beija-flor não suga o néctar com o bico. Ele usa a língua. Durante o beijo, estica a língua para fora do bico. Ela toca a gota de néctar escondida no interior da flor. Depois, recolhe a língua, retira o néctar da língua e repete a operação. Tudo isso ocorre em milésimos de segundo. Durante um beijo, que dura alguns segundos, o beija-flor mergulha a língua 14 a 17 vezes por segundo no néctar. O beija-flor é um amante rápido e eficiente. Dada a velocidade e a privacidade com que o beija-flor usa sua língua, é difícil para um voyeur estudar como a língua captura o néctar.

A língua do beija-flor possui dois sulcos ao longo de seu comprimento. Até agora se acreditava que esses sulcos funcionavam como pequenos capilares rígidos. Ao tocar a gota de néctar, a tensão superficial do líquido faria com que ele subisse pelos sulcos. E era essa pequena quantidade de néctar que era trazida para o bico a cada lambida. Mas os cientistas descobriram que com esse método a conta não fecha: a quantidade de açúcar coletada não seria suficiente para manter o beija-flor vivo. Havia algo de podre no reino da Dinamarca.

Os cientistas resolveram filmar a língua de beija-flores durante o beijo. Para isso construíram uma flor artificial transparente. Colocaram no seu interior um néctar contendo um pouco de tinta vermelha para facilitar a visualização. Penduraram a flor no hábitat natural de 18 espécies de beija-flores e colocaram próximo da flor artificial uma filmadora capaz de capturar 1.260 fotos por segundo. Aí foi esperar os beija-flores. Foram obtidos quase 100 filmes da língua em ação.

Foi analisando os filmes em câmara lenta que os cientistas descobriram como funciona a língua. Tudo o que vou descrever ocorre em 20 milissegundos e pode ser visto em filmes (http://youtu.be/X9NnhblZ-Yw e http://youtu.be/NWEixfBVp0k).

Quando a ponta da língua sai da boca os dois sulcos estão completamente colapsados e a língua é fina. Isso ocorre pois a língua é espremida pelo bico, que é mantido quase totalmente fechado. Rapidamente a ponta da língua toca a gota de néctar e se expande, sugando o néctar para o interior dos sulcos que se abrem à medida que vão enchendo (é possível ver o néctar vermelho subindo pela língua e ela engrossando). Os sulcos se enchem como se fossem duas seringas. Assim que estão cheios, o beija-flor recolhe a língua, que agora passa por um bico mais aberto. Pronto, o néctar está na boca. Agora o beija-flor fecha o bico e empurra a língua para fora. Ao passar pelo bico quase fechado a língua é espremida e deixa o néctar na boca do beija-flor. E tudo se repete. A língua de beija-flor funciona como uma microbomba, capaz de chupar néctar 17 vezes por segundo. Modelos matemáticos desse processo confirmam que ele garante a coleta de néctar suficiente para a sobrevivência do beija-flor.

E foi assim que cientistas voyeurs, filmando os aspectos mais íntimos do beijo de um beija-flor, descobriram o que provavelmente é a menor e mais rápida bomba existente na natureza.

Mais informações: Hummingbird Tongues Are Elastic Micropumps. Proc. R. Soc B, vol. 282, pág. 1014 (2015)

*Fernando Reinach é biólogo

 

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