O BEBÊ QUE SOBREVIVEU AO CAMPO DE EXTERMÍNIO

Há 54 anos no Brasil, George Legmann é uma das mais jovens testemunhas do Holocausto

VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2013 | 02h04

Em 1944, George Legmann nascia no campo de concentração de Dachau, na Alemanha. Quatro meses depois, conseguia o que parecia ainda mais improvável: sair vivo de lá e ainda no colo da mãe dele, a romena Elizabeta, na época com 28 anos de idade. A história de Legmann - o sobrevivente mais jovem do Holocausto que está no Brasil - corre o mundo: ora aparece em documentários internacionais, ora em livros históricos.

A trajetória de Elizabeta e seu filho romeno Legmann é tão singular que até mesmo sobreviventes mais velhos já chegaram a duvidar. "Já tive discussões exacerbadas com sobreviventes do Holocausto que afirmavam que crianças nunca nasceram nos campos", conta Legmann, que comprova tudo o que diz com uma série de papéis recolhidos na Alemanha.

Entre os documentos, o passe de saída de sua mãe do campo, expedido pelas forças armadas americanas, com data de 1.º agosto de 1944. O número da prisioneira era 86.878, o mesmo do bebê. "Mas o meu tinha a letra 'A' no fim."

Quando descobriram que Elizabeta e outras seis mulheres estavam grávidas, o médico ligou para um oficial de Auschwitz, com a intenção de transferi-las. "Mas as tropas russas estavam chegando", conta Legmann. "Já em clima de fim de guerra, o oficial mandou que o médico fizesse o que quisesse com as grávidas." As sete mulheres deram à luz com a ajuda de um médico que também era prisioneiro.

A memória dos primeiros anos de vida de Legmann foi construída com o relato da mãe e de outros familiares. O pai e a avó também estiveram presos em campos de concentração. A história que ouviu desde pequeno ganhou traços mais dramáticos, porém, quando Irene - sua mulher, com quem tem dois filhos - reconheceu a foto da sogra no livro alemão Um Lugar Como Qualquer Outro - Landsberg, com fotos de 1923 a 1958.

Landsberg era um grande campo, dividido em outros menores, construídos a um raio de 100 km entre eles e Dachau.

Emoção. A imagem mostrava cinco mulheres com os bebês no colo, sentadas no galpão onde dormiam. "Minha sogra se lembrou da foto", conta Irene. "Disse que foi tirada por um fotógrafo americano, pouco antes de serem liberadas." Ao todo, Elizabeta contou que eram sete mães, mas duas delas já haviam partido. Legmann ainda hoje se emociona quando olha para a foto dele nos braços da mãe. Seus olhos marejam.

Uma cópia dessa foto também está no Instituto Shoah de Direitos Humanos, criado em dezembro nos Jardins, zona sul da cidade. Ligada à Universidade de São Paulo (USP), a entidade pretende ser referência nacional, principalmente sobre Holocausto, crimes de ódio e intolerância.

Desde que chegou ao Brasil, aos 16 anos, Legmann sempre morou nas proximidades da Avenida Angélica. Formado pela Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), tem uma empresa de marketing cultural que cuida da publicação e produção intelectual em toda a América Latina dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e Bill Clinton (1993-2001), dos Estados Unidos, e do atual presidente russo, Vladimir Putin.

"George sempre falou onde nasceu, mas ver tudo isso confirmado e sentir a dor do Holocausto é impressionante", diz Fernando Henrique Cardoso. "Acho muito importante que as testemunhas falem e sejam ouvidas. Em ponto menor, mas não menos condenável, as torturas e mortes ocorridas no Brasil durante períodos autoritários também precisam ser contadas para que isso nunca mais ocorra."

É por isso que Legmann continua a contar sua história mundo a fora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.