Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

O bairro menos 'brigão' de São Paulo

Com cara de interior, a Vila Pereira Barreto teve 39 agressões neste ano, o menor nº da cidade

Fabiano Nunes e Gio Mendes, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

Localizada a cerca de 20 quilômetros do centro da capital paulista, a Vila Pereira Barreto parece uma cidadezinha do interior encravada no distrito de Pirituba, na zona norte de São Paulo. As ruas estão sempre desertas e as pessoas passam mais tempo dentro das casas, até nos fins de semana. Segundo moradores, esses seriam alguns dos motivos que explicam como Vila Pereira Barreto foi o bairro que teve menos casos de agressão física (lesão corporal dolosa) na cidade neste ano. Entre janeiro e julho, foram registrados 39 casos do tipo na delegacia da região, o 87.º DP, uma média de 5,6 casos por mês.

"Aqui é muito parado. Você vê muitos carros passando pelas ruas, mas quase não se vê pessoas andando a pé", afirma o aposentado José Valente, de 70 anos, 36 deles como morador do bairro. Nesse tempo, ele nunca presenciou brigas entre vizinhos ou de marido e mulher. "Às vezes pode ocorrer um bafafá ou outro nos bares, mas nada grave", diz Valente, que, apesar do sobrenome, só quer saber de tranquilidade. "Estou vendendo minha casa para mudar para um bairro mais tranquilo. As incorporadoras estão negociando com os moradores a venda das casas para a construção de prédios no bairro. Com isso, o local pode ficar mais movimentado."

A professora de português Kátia Bonosi Futagawa Silva, de 35 anos, também diz que o pequeno número de prédios na região ajuda a deixar o bairro mais sossegado. "São menos pessoas circulando na região. Logo, vamos ter menos desavenças entre elas", disse Kátia, que mora no bairro há seis anos. Segundo ela, a Vila Pereira Barreto não é imune à violência. "Casas e estabelecimentos comerciais já foram assaltados aqui. Mas será estranho se isso nunca acontecer em qualquer lugar de São Paulo", afirma Kátia.

Para a auxiliar de produção Silvana Santos da Silva, de 27 anos, que vive na região desde que nasceu, o respeito entre os moradores é fundamental para a boa convivência no bairro. "Aqui ninguém cuida da vida de ninguém", disse Silvana. Assim como os outros entrevistados, ela também nunca ouviu falar de casos de agressão no bairro. "Acho que é porque tem mais idosos vivendo aqui. Eles não são de arrumar confusão.".

Outro lado. A 20 quilômetros dali, mas também na zona norte, o bairro do Jaçanã é o oposto da Vila Pereira Barreto. A delegacia da região, o 73.º DP, registrou 564 casos de lesão corporal dolosa. O bairro fica muito na frente do segundo colocado, a região de A.E. Carvalho, na zona leste - ali, o 64.º DP marcou 386 ocorrências de lesão corporal culposa.

Segundo a polícia, as brigas entre marido e mulher e os desentendimentos com vizinhos estão entre as principais causas.

O delegado titular do 73.º DP, Mário Guilherme da Silveira Carvalho, diz que a densidade demográfica e o alto índice de problemas com alcoolismo podem ajudar a explicar o número de agressões registradas. "Não que aqui seja o bairro mais violento, mas atendemos um grande número de bairros", conta. "Há alguns com diversas invasões e famílias mais humildes, que, infelizmente sofrem com problema do alcoolismo em casa."

Maria da Penha. Para Carvalho, a maioria dos casos de agressão física é mesmo de briga entre casal. "A Lei Maria da Penha incentivou mulheres a virem até a delegacia fazer a ocorrência. Mas nem todos os casos de agressão seguem para a Justiça. Cerca de 90% das vítimas depois desistem de representar criminalmente contra o acusado e o caso é arquivado", explica.

Esse é o caso de uma dona de casa de 59 anos que anteontem foi até o DP denunciar uma agressão que sofreu do marido. Segundo o depoimento dela registrado no boletim de ocorrência, a discussão entre o casal começou por motivo fútil.

"Meu marido é pedreiro e pedi que ele consertasse a torneira onde instalei a máquina de lavar roupas. Foi onde começou discussão. Quando respondi para ele, levei um soco no olho." Ela já havia sido agredida outras vezes pelo marido, mas, pela primeira vez, decidiu prestar queixas à polícia.

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