''O ato não foi impulsivo. Foi premeditado''

ENTREVISTA - Sergio Tamai, PSIQUIATRA DA SANTA CASA DE SÃO PAULO

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2011 | 00h00

É comum que, diante de uma situação tão extrema como a da escola no Realengo, espectadores se perguntem o que leva uma pessoa a atirar em crianças dentro de uma escola. As respostas nunca são simples, especialmente diante de informações ainda confusas e contraditórias. Mas o psiquiatra Sergio Tamai faz algumas conjecturas do que pode ter acontecido no colégio da zona oeste do Rio.

O que pode ter levado o rapaz a esse extremo de violência?

Com base na carta dele, dá para tirar algumas conclusões. Podemos deduzir que ele tinha transtornos mentais com quadro psicótico. O ato dele não foi impulsivo. Foi premeditado. Até instruções sobre seu enterro ele passou. E ele tinha a convicção de que morreria no episódio.

Que outros indícios apontam para um transtorno mental?

O cunho religioso de algumas declarações dele na carta não fazem muito sentido para nós. Há sinais de que ele leva algumas coisas muito ao pé da letra, julga os fatos sem um senso crítico sobre se aquilo que ele está pensando e fazendo é adequado ou não. Veja, a psicose é um estado do indivíduo em que ele não tem capacidade de apreender o quadro ao seu redor.

Qualquer pessoa está sujeita a fazer algo como o Wellington?

É pouco provável que qualquer um de nós façamos isso, porque, quando uma pessoa "surta", é um ato impulsivo, não há premeditação. O psicótico dificilmente é agressivo. Normalmente, acha que é perseguido, por isso se isola. Ele não é a regra, é a exceção.

Que outras características tem um psicótico?

Esse quadro começa no meio da adolescência e se expressa com mais vigor no meio da juventude, bem na faixa do rapaz, dos vinte e poucos anos. Ele pode ter alucinações, ideias delirantes. E, assim como nos casos de tiroteios em escolas dos EUA, há uma tendência suicida. Por algum motivo, nesses episódios de tiroteios, os indivíduos acabam envolvendo mais pessoas em seu ato suicida. Descobrir o que os leva a isso é a grande questão.

Isso poderia ter sido evitado?

Talvez, se ele tivesse sido tratado, sim. Mas o estigma do indivíduo com transtornos mentais é terrível. A família e o próprio doente não querem tratar e, quando decidem tratar, têm dificuldade em encontrar ajuda.

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