O arquiteto que esquentou o Design nacional

Guto Requena despontou com a decoração da casa noturna Hot Hot, chamou a atenção da mídia especializada e levou suas ideias de vida moderna e funcional para a Casa Cor

Valéria França, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2010 | 00h00

Mais com menos. Guto Requena na Paulista, perto de sua casa: por opção, o arquiteto vendeu o carro e prefere andar a pé ou de patins pela cidade

 

 "Você ainda vai ouvir falar muito dele." Essa é a frase que mais se escuta quando vem à baila o nome do arquiteto Guto Requena, um garotão de 30 anos e braços tatuados que ultimamente deixou a barba crescer para impor um pouco de respeito no mundo dos negócios. De seis meses para cá, o telefone do escritório que montou com os amigos da faculdade, o Whydesign, não para de tocar. Ele nem atende. Deixa cair direto na secretária eletrônica, para filtrar as ligações. "Tem gente que liga até para pedir dica de piso", diz Guto.

Todo esse alvoroço em torno do trabalho do jovem arquiteto começou com a inauguração da Hot Hot, casa noturna na Bela Vista, no centro de São Paulo. A balada pertence a Flávia Ceccato, ex-proprietária do Lov.e, um clube que durante dez anos atraiu os modernos no Itaim-Bibi, zona sul. "Eu conhecia o repertório de Guto e sabia que, apesar da pouca experiência profissional acumulada, faríamos uma boa dupla. Ele tem ousadia para fugir do lugar comum", diz Flávia. "É um dos arquitetos mais contemporâneos."

Flávia queria abrir um clube no centro e estava à procura do lugar ideal. "Demorei para achar o ponto certo, um prédio de 40 anos, abandonado há 14, com vidros quebrados e tomado por penas e cocô de pomba. Consigo enxergar como o lugar vai ficar depois de pronto", observa. A empresária sabia, por exemplo, que não queria mármore nem porcelanato como revestimento da nova casa.

Quando a Hot Hot abriu, surgiram os primeiros admiradores de peso, como Hussein Jarouche, dono da Micasa e espécie de mecenas do design nacional. "Ele (Guto) pensa em resoluções glamourosas com materiais baratos", elogia. Jarouche se refere, entre outros itens da decoração, aos grandes lustres de madrepérola que Guto colocou próximo do bar. Bem impressionado, o empresário resolveu contratar o arquiteto para fazer a decoração de uma casa que vai montar no centro. "Vai ser um espaço para festas, drinques e projeções só para convidados", diz Jarouche. "É que adoro festas, e em casa não dá, por causa dos vizinhos."

Funcional. Guto também conquistou a mídia especializada. "Meu trabalho tem sido muito fotografado", conta ele. "Estava na hora de pintar uma leva de designers de interior com outra cabeça, que não quer uma decoração de vitrine, bonita e pasteurizada", diz Simone Quintas, diretora da revista Casa & Jardim. "Ele pensa em quem vai morar na residência e cria móveis funcionais de fato. É criativo e pé no chão ao mesmo tempo."

Essa definição vale também para o estilo de vida do arquiteto. O apartamento onde mora, na região da Avenida Paulista, combina moradia e escritório no mesmo endereço. Guto derrubou todas as paredes, ampliando o espaço, mas criou soluções para não misturar trabalho e assuntos pessoais. A cozinha ficou resumida a fogão e pia, escondidos por cortinas cenográficas que ficam iluminadas à noite. A cama e as mesas da casa têm rodas, para mudar de lugar e função mais facilmente.

Este ano, pela primeira vez, Guto foi convidado para expor na Casa Cor. Bolou um espaço coletivo para uma empresa de eletrodomésticos dar cursos de culinária. Lá, o que salta aos olhos é o reaproveitamento de materiais: madeira de caixotes de frutas deram origem ao chão do espaço; um barril de ferro, a uma pia (batizada de Narciso); e trenas, a uma mesa de centro.

"Ele é articulado e eloquente", diz Lélia Arruda, que coordena os novos projetos do escritório dos irmãos Campana. Os dois se conheceram em um concurso de design do qual faziam parte do júri, ao lado dos arquitetos Marcelo Rosenbaum e Maurício Kogan e de Hussein Jarouche.

Apesar do jeitão despojado, sempre de tênis, camiseta e, não raro, patins nos pés ? Guto vendeu seu último carro por achar que as pessoas precisam aprender a viver com menos ?, o arquiteto é professor do Instituto Europeu di Design (IED), em Higienópolis. "Comecei a dar aula cedo, quando ainda estava na Faculdade Arquitetura (da Escola de Engenharia de São Carlos)." Nessa época, foi pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Habitação e Modos de Vida (Nomads) da faculdade, o que o levou a dar palestras Brasil afora. "Sou pilhado. Estou sempre tocando vários projetos ao mesmo tempo", diz ele, que acaba de vender para uma produtora o Volta, Design Around, programa que começará em breve a ser veiculado na internet e depois passa para a TV.

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