O amor nos cemitérios

As obras de arte nos cemitérios de São Paulo não celebram apenas a dor. Várias das mais belas celebram o amor. Escritos derradeiros também. Apaixonados que a morte separou mandaram gravar na pedra a poesia de seus sentimentos imorredouros por quem se foi. Raramente são textos de qualidade literária. Mas pode-se vislumbrar nas mal traçadas linhas a beleza que continua a unir quem ficou e quem partiu. Há entre nós uma literatura cemiterial que comporta compreensão. Versos que não foram para os livros, mas para o túmulo. Último arroubo de corações apaixonados e inconformados com a partida dos que se foram antes do tempo.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2012 | 07h06

Mas é nas esculturas que os sentimentos são mais intensos e mais belos. Certamente porque os poemas foram escritos por amadores e as esculturas tenham sido feitas por artistas consagrados ou a caminho da consagração. Já a partir dos anos 1920, surgiram no Consolação, no Araçá e no São Paulo os primeiros monumentos que celebram sem qualquer timidez a paixão no pleno sentido da palavra que é a paixão carnal. Sinal de que os paulistas não se intimidavam diante da carolice repressiva tão característica de nossa sociedade. Ciclo inaugurado com Solitudo, um nu que Francisco Leopoldo e Silva, irmão mais moço do arcebispo dom Duarte, em cuja casa morava e esculpia, talhou em granito, em 1922, para o túmulo de Teodureto de Carvalho e a mulher, no Consolação. Teodureto era advogado, frequentava os meios literários e artísticos. Em 1909, fizera parte do grupo que levou Anatole France ao Alto da Serra para um almoço de despedida.

Também no Consolação, uma escultura de Nicola Rollo, no túmulo da família Trevisiolli, relembra a tragédia de Orfeu e Eurídice, unidos pelo amor e separados pela morte e só na morte se reencontrariam. Amor eterno e mítico.

E no mesmo cemitério uma escultura lindíssima e sensual, anônima, proclama a paixão de um jovem marido, imigrante italiano, por Luisa Crema Marzoratti, falecida em 1922. Na delicadeza do mármore branco, o escultor recobriu pudicamente com um véu de pedra a nudez de uma jovem cujo corpo exuberante insurge-se contra o perecimento descabido e injusto.

Tributo. Mas a grande e emocionante celebração do amor nos cemitérios da cidade de São Paulo é a escultura Último Beijo, de Alfredo Oliani, no túmulo de Antonio e Maria Cantarella, no Cemitério São Paulo. Maria, que faleceria em 1982, dez anos mais moça do que o marido, falecido em 1942, pedira ao escultor uma obra que expressasse com clareza seus sentimentos em relação ao marido morto, o que também manifestou no escrito que acompanha a escultura: "Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto. Tributo de Maria." Na escultura, um homem em pleno vigor e cheio de vida beija, no estertor da paixão, a mulher morta.

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