O abraço não é mais aquele!

Como quase todo carioca que não circula pelas bandas mais profundas da zona oeste de sua cidade, sei de Realengo por "aquele abraço" que Gilberto Gil lhe dá no famoso samba-exaltação que compôs no exílio de Londres para anunciar sua volta ao Rio de Janeiro.

Tutty Vasques, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2011 | 00h00

Na época, o músico baiano também pouco conhecia do bairro, além do quartel do Exército onde passou por maus bocados quando lá esteve preso com Caetano Veloso durante a ditadura militar. Realengo, na canção, é metáfora de um Brasil que não perde a alegria nos piores momentos de sua história.

"Alô, alô Realengo!" O Brasil inteiro voltou a te abraçar ontem de um jeito diferente, comovido, solidário à tragédia particular que botou o bairro de novo na boca do povo. O abraço não é mais aquele, mas a intimidade sugerida na letra de Gilberto Gil permanece intacta no choro compungido de quem até hoje nada sabia a respeito de Realengo.

Eu aqui do outro lado da montanha, você aí em São Paulo, a presidente Dilma em Brasília, todo mundo esteve em pensamento nessas últimas 24 horas em Realengo, tentando entender a estupidez que incluiu o Brasil na rota dos massacres em escolas mundo afora.

O lugar que o País inteiro abraçou sem saber direito o que abraçava na cadência bonita do samba tem agora cara, sentimentos, angústia, desespero, dor, tristeza e medo documentados em suas ruas pelos telejornais do planeta. Todo brasileiro conhece um lugar esteticamente parecido em sua cidade, mas nenhum outro subúrbio conhece drama com a dimensão da tragédia da Escola Municipal Tasso da Silveira.

No lugar de Aquele Abraço, Realengo me traz agora à cabeça o choro-canção Subúrbio, de Chico Buarque:

"Lá não tem claro-escuro

A luz é dura

A chapa é quente

Que futuro tem

Aquela gente toda

Perdido em ti

Eu ando em roda

É pau, é pedra

É fim de linha

É lenha, é fogo, é foda

Fala Realengo..."

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