Yasuyoshi Chiba/AFP
Yasuyoshi Chiba/AFP

O 1º Miss Universo ''made in Brasil''

As disputas ''bairristas'' e os bastidores do show em inglês que consagrou Angola

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2011 | 00h00

O piloto de helicóptero Alberto Ortega já passou por muitas situações de estresse, mas a desclassificação da candidata da Venezuela, Vanessa Gonçalves, anteontem, na final do concurso Miss Universo, foi demais. Com uma espécie de espasmo facial, Ortega segurou o choro, disse um palavrão baixinho (#+*@!) e consolou-se:

"A candidata de Portugal também é venezuelana. Temos, na verdade, duas representantes do nosso país", suspirou ele, na plateia do Credicard Hall. Estava com dois amigos de Caracas. "La brasileña no puede ser... (a vencedora)!", repetiam os três, com expressões ressentidas, em um volume audível para a torcida verde e amarela. A gaúcha Priscila Machado ainda estava no páreo. Ficou em terceiro lugar.

A vencedora foi a angolana Leila Lopes que, aos poucos, conquistou a unanimidade com um sorriso devastador. "Vai dar Angola, com certeza!", disse, minutos antes do anúncio, o bacharel em Direito curitibano Ricardo Niebuht, de 22 anos, apaixonado por concursos de miss "desde os 12 anos".

Ricardo está no meio de um grupo de semelhantes, a maioria de homens. O funcionário público carioca de férias Francisco Budal, de 35 anos, não gosta da palavra "cafona"."Os desfiles de miss são um pouco anacrônicos, sim", diz.

Miss construída. O dermatologista Juliano Crema, de 36 anos, radicado em Londres, afirma que é a favor da "beleza construída". Cita o exemplo da Venezuela, que (pobre Ortega) é mais conhecida pelas vitórias de misses Universo (seis ao todo) do que pelas reservas de petróleo.

"Eles escolhem a candidata com um ano de antecedência, para dar tempo de fazer todas as cirurgias", explica Crema, cujo rosto muito liso tem uma expressão de constante alerta; explica que é, ele próprio, adepto do Botox, do peeling químico e do laser. Leila Lopes, a vencedora, afirma que nunca se submeteu a uma cirurgia plástica ou procedimento estético.

Racismo. A internet registrou ontem diversas manifestações racistas depois da vitória de Leila. "Essa é a "menos feia" de um país inteiro, como alguém consegue achar uma preta bonita?", postou um usuário do site www.stormfront.org, de tendências nazistas.

No mesmo endereço, sugeriam que o concurso "não passa de mais uma maneira de divulgar o multiculturalismo sionista e as "belezas" da diversidade". "E me assustam alguns países brancos europeus com representantes não brancas."

Leila, que não é a primeira miss negra da história do concurso, disse que não se importa com racismo. "Acho que as pessoas preconceituosas deveriam buscar ajuda, elas é que não estão bem na vida."

Pela primeira vez no Brasil, a final do concurso teve show de capoeira estilizado, samba tipo exportação e figurinos de "cores tropicais". Horas tantas, Cláudia Leitte apareceu cantando em inglês, dentro de um maiô platinado, carregada por um grupo de bailarinos musculosos - aliás, o show foi todo em inglês.

Os rapazes a conduziam, como se fosse Madonna, em cima de uma vitória-régia estilizada. "It"s Friday Night and I"m ready for dance..", ela cantava, acompanhada de uma batucada.

"Gente, os vips da primeira fila, Kamura, todos, I need you loud and I need you strong! Vocês estão sendo filmados em HD, todas as suas emoções vão ser transmitidas para o mundo!", alertava o repórter Erico Aires, da Band, convocado para traduzir os apresentadores americanos e animar a plateia.

Muito antes de Leila Lopes se tornar a mais ovacionada, Erico disparou: "A Angola é quase o Brasil!" Quase.

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