Clayton de Souza/AE
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'Nunca tinha feito caixão. Ia começar logo com esse?'

Jacir Antonio da Silva, de 66 anos, encarregado da manutenção do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital desde 1985, se encarregou do serviço; velha urna estava deteriorada

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2013 | 02h02

Atualizada às 9h04

SÃO PAULO - Depois de enfrentar quase dois séculos de umidade, o caixão de Dom Pedro I estava imprestável: a madeira apodreceu, as laterais abriam e ameaçavam ceder, o fundo do caixão era tão frágil que se separava do resto. Pés e cabeceira do esquife estavam desencaixados - um dos ossos dos pés do imperador chegava a cair para fora.

Estava claro: após estudar a ossada de Dom Pedro I, era necessário colocá-lo em uma nova urna. A ideia, óbvia, era comprar um outro caixão. Não deu certo - não havia urna que se encaixasse no formato necessário. Seria preciso construir sob medida (bem específica: 1,97 m de comprimento e largura variável: 41 cm para cabeça, 38 cm para os pés).

Foi quando entrou em cena Jacir Antonio da Silva, de 66 anos, encarregado da manutenção do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital desde 1985. Sabia-se dos dotes de marcenaria do funcionário, que costumava consertar mesas e cadeiras e construir banquinhos usados em aulas na Faculdade de Medicina da USP.

Mas, apesar de tanto tempo de trabalho no maior centro identificador de causa de mortes do País, caixão ele nunca havia construído. "Apareceram com um papelzinho com umas medidas, disseram que era para caixão e achei estranho. Por que não faziam como sempre e compravam pronto?", lembra Jacir. "E no começo nem quiseram me dizer para quem era."

O homem já tinha tudo o que precisava à mão - cinco tábuas de pinho compradas no Largo da Batata -, quando finalmente ficou sabendo quem seria o dono da urna que construía. "Foi aí que assustei de vez. Nunca tinha feito caixão. Ia começar logo com um pedido desses? Achei que fosse brincadeira. Aliás, em casa, até hoje os filhos não acreditam muito."

Em uma semana, o caixão estava pronto, com as medidas exatas do papel, guardado por ele como lembrança. Para arrematar, fixou um crucifixo de metal na tampa - autorizado pela família imperial - e deu por terminado o serviço. "Olha, só posso dizer que, se cuidarem direitinho, aguenta mais 200 anos."

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