Numismata passivo

Corcovado, Pão de Açúcar, Arcos da Lapa? Nada disso. Na próxima ida ao Rio, vou visitar a Casa da Moeda.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h05

Com tanta coisa para fazer na Cidade Maravilhosa, você pode indagar que graça vejo em programa tão desenxabido. Talvez seja mesmo - mas leve em conta uma fantasia antiga: eu sempre quis ver dinheiro sendo feito na minha frente. O sonho, até há pouco inviável - pois a Casa da Moeda, criada em 1694, só agora foi aberta à visitação -, vem dos meus tempos de menino, e, não fosse pelo risco de ser mal interpretado pela polícia, talvez tivesse me estabelecido como fabricante de cédulas e moedas.

Na infância, quando nossa grana era produzida em Londres, pela Thomas de La Rue, eu pegava uma daquelas notas de 1 cruzeiro, com a efígie do Pedro Álvares Cabral, e me punha a imaginar como seria a bica de onde aquilo manava. Tinha visto impressoras a despejar exemplares de O Diário, que meus pais assinavam (e que se anunciava como "O maior jornal católico da América Latina". O que não impediu que O Diário acabasse. A América Latina, ainda que mal e mal, continua.).

Seria assim a fábrica da tal Thomas de La Rue? - devaneava eu. Por essa época, comecei uma coleção de notas e moedas que, previsivelmente, não foi adiante: mal entrava a peça, o colecionador ia trocá-la na Nova Mercearia por barrinhas de Chocolate Refeição. Tive dias de duas, três, cinco refeições. A coleção não engrenava. Mais adiante, herdei de alguém (um tio, provavelmente, pois coleção de moedas ou selos é coisa de tio) uma caixa abarrotada de notas e moedas brasileiras. Já fora de circulação, escaparam de virar chocolate. Por falta de sobrinho interessado, ainda estão aqui, nesta altura dos acontecimentos em que também o colecionador corre o risco de sair de circulação.

Fazer o quê com meu acervo de papel e metal vira-lata, parte dele cunhado pela Thomas de La Rue, parte pela Casa da Moeda do Brasil? A julgar pelo que também li no jornal, meu problema parece não ser muito diferente do que vivem os filhos de João Cabral de Melo Neto, às voltas com papéis empoeirados - quem diz isso é um dos herdeiros do poeta, referindo-se a cartas que o pai recebeu de uns missivistas chamados Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes.

Antes que a poeira viesse cobrir de vez aquela papelada, os rebentos cabralinos tomaram a decisão de passá-la nos cobres, num leilão marcado para os próximos dias. E nem estão pedindo fortunas pelas cartas. Somos desapegados, explicou à reportagem um dos herdeiros do autor de Museu de Tudo. Pedem mixarias, na verdade. Se me permitem um breve editorial em plena crônica, direi que considero um escândalo a obtusa naturalidade de quem, numa faxina em casa, se livra assim de documentos preciosos da nossa vida literária. Escandaloso também que, divulgada a notícia do leilão, não tenha havido uma corrida de instituições públicas das quais se espera empenho em preservar tamanhos tesouros, salvando-os, mais que da poeira, da insensibilidade de quem os vê como descartáveis papéis velhos.

Não sei o que farão meus filhos quando um dia se virem às voltas com herança bem menos relevante (embora tilintante), a minha coleção de notas e moedas. Aqui está como a recebi. Não lhe acrescentei um mísero centavo nesses anos todos - o que faz de mim, admito, um numismata passivo. Passivo e voyeur, descubro agora, tentado que estou pelo renitente desejo infantil de ver máquinas a despejar um dinheiro que hoje ganho tão penosamente. Duvido que a Casa da Moeda me permita saciar também o desejo de botar os dedos numa grana que imagino saia quente, literalmente quente, e que uns vigaristas haverão de requentar, ou de lavar em paraísos fiscais.

Não chegarei a tanto. A mim vai me bastar estar ali, vendo alguém fazer dinheiro, quem sabe excitado como outra turma, aquela que se aquece, perdoem a vulgaridade da comparação, num peep-show de outra natureza, mas não por isso menos excitante.

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