MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Número de suicídios de policiais no País supera as mortes em confronto

Volume crescente de casos de suicídio acende alerta para a necessidade de melhoria na assistência à saúde mental, apontam especialistas. Mais de cem tiraram a própria vida em 2018. Relatório vê influência do ‘estresse inerente à função’

Marco Antônio Carvalho e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 18h25
Atualizado 26 de setembro de 2019 | 11h21

SÃO PAULO - O número de policiais que cometeram suicídio no Brasil em 2018 (104 casos) foi maior que a quantidade que morreu em decorrência de confronto em serviço nas ruas (87). Para especialistas, o volume de suicídios acende uma alerta sobre a necessidade de as corporações prestarem melhor assistência à saúde mental dos agentes. O estresse inerente à função policial e conflitos institucionais, como assédio moral, são apontados pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo como fatores que, em conjunto com outros, podem contribuir para essas mortes.

A Ouvidoria divulgou nesta quarta-feira, 25, um relatório em que analisa os suicídios de policiais cometidos no Estado de São Paulo em 2017 e 2018 - os dados nacionais são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados neste mês. O estudo paulista compila os registros para detalhar informações como o perfil da vítima, além de ter conversado parentes e amigos para entender o contexto em que a morte aconteceu. O órgão chama atenção para a alta taxa de suicídio entre policiais, que é de 23,9, enquanto no total da população o número é de 5,8 por 100 mil habitantes. 

Os números mostram que o suicídio é a principal causa de morte dos policiais civis paulistas, superando as mortes decorrentes de confronto em serviço e de folga. Na Polícia Militar, as autolesões fatais representam a segunda maior causa de morte, atrás dos assassinatos sofridos na folga, mas à frente dos óbitos ocasionados por confrontos em serviço. “A pesquisa aponta que há necessidade de ampliar o suporte à saúde mental dos policiais em São Paulo, especialmente na Polícia Civil, onde a pesquisa aponta que não há programa nenhum”, disse o ouvidor, Benedito Mariano.

O estudo elenca oito fatores que, em conjunto, podem contribuir para esses casos. Os pesquisadores destacam que, corriqueiramente, os pensamentos suicidas estão associados a problemas da saúde mental, como depressão. Mas é o estresse inerente à função policial que é citado com destaque nessa lista de fatores. “Se o estresse é inerente, então o policial deve começar a lidar com isso já na academia e tem de existir um programa que o acompanhe ao longo da carreira. Não adianta só dar viatura, armamento e uniforme e não cuidar da saúde mental”, apontou Mariano. 

Fatores que podem ter contribuído para suicídio de policiais, de acordo com a Ouvidoria

  • Estresse inerente à função policial
  • Falta de suporte de serviço de saúde mental
  • Depressão
  • Conflitos institucionais
  • Conflitos familiares e problemas financeiros
  • Isolamento social, rigidez e instrospecção
  • Subnotificação das tentativas de suicídio
  • Fácil acesso a arma de fogo

A psicóloga Beatriz Brambilla, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, reforça que não é uma única dimensão que produz a motivação das vítimas. “A ideia do multicausal é que se possa compreender o fenômeno na totalidade. Então a pessoa que está em sofrimento não está assim por uma questão interna ou porque ela tem uma fragilidade ou inadaptação. Temos que compreender que há questões que são do sujeito, mas que há questões sociais”, disse.

Soldado desistiu de suicídio e hoje presta assistência a colegas

O soldado Antônio Figueiredo Sobrinho, de 56 anos, tinha três anos e meio de carreira na Polícia Militar quando reagiu a uma tentativa de assalto no comércio onde realizava um bico de segurança. Correu atrás do assaltante, mas não percebeu que um comparsa estava nas suas costas. Foi baleado e ficou paraplégico. 

Acostumado à ideia de ser um herói para os filhos e de prover para a sua família, viu-se muito abalado depois do caso, pois se enxergava como um fardo para os que tentavam ajudá-lo a se adaptar e a vencer as novas barreiras. “Por duas vezes tentei suicídio. Coloquei a arma na cabeça e o dedo no gatilho. Não queria mais viver porque pensava que meus filhos não precisavam de um pai aleijado”, disse ao Estado nesta quarta-feira, 25.

Desistiu da ideia e trilhou o caminho contrário, passando a ajudar aqueles que enfrentavam os mesmos problemas que ele. Sobrinho ajudou a criar a Associação de Policiais Portadores de Deficiência, que conta hoje, segundo ele, com mais de 23 mil associados. Lá, uma série de serviços é oferecida, de doação de cadeira de roda à assistência psicológica. “Fazemos um trabalho de integração daquele policial de volta à sociedade”, acrescentou. 

A imagem de guerreiro estimulada na formação policial, disse Benedito Mariano, dificulta que os agentes se reconheçam como seres humanos passíveis de problemas e que peçam ajuda. “Se a formação reforça que o policial é um guerreiro, logo ele não pode ter nenhuma fraqueza. E quem cuida da saúde mental é visto como fraco. Isso está no senso comum e só vai mudar quando a assistência psicológica não for tratada como algo menor na formação”, defendeu o ouvidor. “Não existe super-homem.” 

Presidente do Conselho Federal de Psicologia, Rogério Giannini disse que a reflexão sobre a saúde mental do policial beneficia toda a sociedade. “É importante para a sociedade uma polícia melhor. A pesquisa de certo modo contribui com ideia de humanização da polícia. O policial é um ser humano que tem as vicissitudes de qualquer ser humano.”

A auditora fiscal do trabalho aposentada, Maria Aparecida Almeida Dias de Souza, de 70 anos, ainda reflete sobre as razões que levaram sua irmã, a delegada da Polícia Civil Maria Cássia Almeida Almagro, a tirar sua própria vida, em julho de 2015, aos 54 anos. “Podem ter havido outros motivos, mas é certo que havia uma insatisfação muito grande com a profissão. Ela vivia uma frustração de não poder realizar aquilo que achava que devia fazer.” A delegada foi encontrada morta em sua casa, em um condomínio de Sorocaba, com ferimento à bala. A perícia indicou que ela havia se suicidado.

Maria Aparecida conta que a irmã enfrentava problemas familiares, pois seu segundo casamento havia terminado e o único filho tinha se mudado para os Estados Unidos. No dia anterior à sua morte, Cássia esteve na casa da irmã e falou do curso e dos planos. “Ela não demonstrou nada, estava feliz, cheia de planos.”

A presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo, Raquel Kobashi Gallinati, classificou a rotina do policial civil no Estado como “estafante”. “Sabemos que a profissão internacionalmente é ligada aos maiores índices de suicídio. Atuamos sob pressão e tendo que gerenciar crises a todo instante em situações adversas. Isso se soma à completa falta de estrutura, condições de trabalho e baixos salários.” O aumento de estresse, diz Raquel, leva a afastamentos e, no limite, a uma consequência máxima, que é o suicídio. 

O relatório da Ouvidoria termina com 11 recomendações de melhoras a serem efetuadas pelas corporações. À Polícia Militar, o órgão recomenda a criação de mais 75 núcleos de assistência psicossocial, o que cobriria quase todos batalhões. Hoje, são 35 núcleos no Estado. Além disso, a Ouvidoria pede que o tema da saúde mental seja incluído nas preleções diárias das unidades e nos treinamentos. Para a Polícia Civil, o órgão recomenda a implementação urgente de um programa de saúde mental e contratação de psicólogos para a atividade.

Recomendações serão avaliadas. Polícias contam com sistemas de apoio, diz secretaria

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que as recomendações da Ouvidoria serão avaliadas pelas áreas técnicas da pasta. A secretaria disse que as políciais do Estado "contam com sistemas de apoio e atendimento psicológico

aos seus agentes". Na Polícia Civil, diz a pasta, há a Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial, no Departamento de Administração e Planejamento (DAP), que conta com psicólogos e assistentes sociais, "que ficam disponíveis para atender os policiais".

Além desta divisão, acrescenta a secretaria, a Corregedoria e a Acadepol também oferecem atendimento psicológico aos agentes. "Sempre que necessário, os casos são encaminhados ao Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME) para avaliação. Todos os policiais paulistas são atendidos pelo Hospital do Servidor Público Estadual e pela rede conveniada pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE), disponível em todo o Estado."

Na Polícia Militar, há o Sistema de Saúde Mental, "que disponibiliza núcleos em todo Estado, com psicólogos e assistentes sociais". "Faz parte do sistema, o Centro de Atenção Psicológica e Social (CAPS) e 35 Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS), com programas preventivos na área de saúde mental, palestras, atendimentos psicológicos individuais e em grupos", diz a pasta da Segurança.

O Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar (PAAPM) avalia periodicamente as condições psicoemocionais de policiais envolvidos em situações de risco e ocorrências traumáticas, informou a pasta. "Ainda, auxilia no processo de adequação e retorno às atividades profissionais. Esse trabalho e seus resultados são acompanhados e supervisionados pelo comando da instituição."

Setembro amarelo

Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. É neste mês que ações em diferentes esferas sociais buscam promover a saúde mental e dar destaque a centros que oferecem ajuda a quem precisa. O mês foi escolhido em razão do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, celebrado todo ano em 10 de setembro. A data é organizada pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e tem a Organização Mundial da Saúde (OMS) como copatrocinadora. O objetivo do dia é conscientizar as pessoas ao redor do mundo que o suicídio pode ser evitado.

O Estado mostrou que, segundo a OMS, mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e, portanto, podem ser evitados se as causas forem tratadas corretamente. O Centro de Valorização da Vida aposta na educação e na conversa aberta sobre suicídio. "É preciso perder o medo de se falar sobre o assunto. O caminho é quebrar tabus e compartilhar informações", defende o movimento em seu site.

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