Tiago Queiroz/Estadão
Veterinários do Centro de Controle de Zoonozes capturam morcegos para pesquisas e análises. Depois, os animais são soltos.  Tiago Queiroz/Estadão

Número de acidentes com morcegos cresce 101% em São Paulo

Entrada de grupos em Área de Proteção Ambiental (APA) na zona leste é um dos fatores para alta; casos saltaram de 107 para 216

Tiago Queiroz e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 09h50

SÃO PAULO - O número de acidentes com morcegos na capital paulista cresceu 101,8% neste ano, segundo dados da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), órgão da Secretaria Municipal da Saúde. Os registros passaram de 107, em 2018, para 216, em 2019 (até o dia 4). Entre os motivos para a alta está a entrada de grupos, principalmente religiosos, em uma Área de Proteção Ambiental (APA) na zona leste da capital.

"Os morcegos são muito comuns nas áreas urbanas e estão em todos os distritos e bairros, pois se adaptaram bem", afirma Débora Cardoso de Oliveira, bióloga do setor de Quirópteros do Divisão de Vigilância de Zoonoses da secretaria.

De acordo com ela, os mais famosos e temidos - que se alimentam de sangue, chamados hematófagos - estão restritos às áreas de mata. Normalmente, eles mordem outros animais, mas quando encontram pessoas em seu habitat podem também mordê-las em busca de alimento. "Não existe um ataque de morcegos. Eles não atacam, não tem um comportamento agressivo", conta.

São registrados como "acidente" quando as pessoas são mordidas ou arranhadas por qualquer espécie de morcegos, incluindo aqueles que não se alimentam de sangue, e mesmo no caso em que elas se ferem tentando capturá-los.

Parte do aumento foi causada pela entrada de grupos religiosos em uma APA. De acordo com a pasta, não é possível indicar quais regiões da cidade registram mais acidentes, pois a notificação é feita por local de residência e não de ocorrência. No entanto, 31,9% dos casos deste ano foram atendidos em um hospital da zona leste, o Tide Setubal, que é a unidade de referência para este tipo de atendimento na região, onde houve 69 casos. Segundo a secretaria, a unidade também atende pessoas de outras partes da cidade e de municípios vizinhos.  

A secretaria informou que a Unidade de Vigilância em Saúde (UVIS) da Cidade Tiradentes, na zona leste, fez um trabalho de monitoramento dos morcegos na APA Iguatemi e orientou a população com relação à proteção ao ingressar em áreas de mata.

Além da entrada de pessoas em áreas de mata, a secretaria diz que campanhas de conscientização para que a população procure atendimento médico em caso de acidente foram realizadas e que isso pode ter contribuído para o aumento de registros.

Bióloga que trabalha com morcegos há uma década, Helen Regina da Silva Rossi explica que, ao longo dos anos, os morcegos se adaptaram à vida nas cidades, principalmente as espécies que se alimentam de insetos.

"As cidades foram crescendo e tomando conta das matas. A iluminação das cidades atraiu os insetos e os morcegos vão em busca de alimento. E os morcegos que se alimentam de insetos se adaptaram às casas. Por isso, eles podem ser encontrados no forro das residências."

Recomendações

Ao encontrar um morcego, a recomendação é não pegá-lo. Também é necessário ter cuidado ao limpar o local onde os morcegos se instalaram.

"Ele morde e pode transmitir a raiva. Outra doença ligada ao morcego é a histoplasmose, que é causada pelo esporo de um fungo que surge nas fezes do morcego. Ao ser aspirado, ele causa essa doença respiratória que tem tratamento e cura, mas é bem desagradável."

Raiva

A capital não tem registro de raiva humana autóctone desde 1981. No Estado de São Paulo, nenhum caso de raiva foi registrado neste ano. No ano passado, houve o registro em um paciente de Ubatuba, segundo a Secretária de Estado da Saúde.

"Caso tenha tido contato direto com um morcego ou se for frequentador de áreas de mata e notar qualquer ferimento com sangue, é imprescindível procurar orientação médica pelo risco de pegar raiva. Essa doença, se não for tratada imediatamente, é fatal. Pessoas, cães e gatos com histórico de contato com morcegos também devem procurar ou ser encaminhados para o serviço de saúde, para a avaliação médica", informa a secretária municipal.

A pasta estadual relembra que não é permitido ferir nem matar esses animais. "Cabe lembrar que morcegos são animais silvestres protegidos por legislação, e contribuem ambientalmente no processo de polinização, dispersão de sementes e redução de pragas de insetos. Por isso, não devem ser capturados e mortos pela população."

O que fazer ao encontrar um morcego?

  • Não toque no animal. Tente imobilizá-lo com um balde, um pano ou uma caixa
  • Chame a Divisão de Vigilância de Zoonoses pelo telefone 156
  • Solicite a abertura de um SAC de remoção de morcego
  • O serviço funciona 24 horas

E se eu for mordido ou arranhado por um morcego?

  • A orientação é procurar uma unidade de saúde ou o  Instituto Pasteur

E se o acidente for com um animal doméstico?

  • Ele deve ser levado ao veterinário. É importante que todos os animais sejam vacinados contra a raiva.
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'Caçadores' de morcegos percorrem áreas verdes para catalogar animais

'Estado' acompanha pesquisadores em suas andanças; pesquisa foi feita no parque Cidade de Toronto, na zona oeste da cidade

Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h10

SÃO PAULO - Eles podem comer até metade do próprio peso em uma só noite. Ao contrário do que muitos pensam, enxergam muito bem e, embora assustem muitas pessoas, exercem mais o papel de heróis na natureza do que de vilões. Únicos mamíferos capazes de voar, os morcegos se adaptaram à rotina das cidades ao longo dos anos e se tornaram presentes não só em parques: os que comem insetos podem "morar" no forro das residências. Em São Paulo, especialistas percorrem as áreas verdes para catalogar as espécies existentes na cidade e, na noite de uma terça-feira, o Estado acompanhou uma dessas "expedições" para obter informações sobre os morcegos paulistanos.

O  trabalho de biólogos e veterinários da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente e do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) foi realizado no Parque Cidade de Toronto, na zona oeste da cidade. O objetivo era quantificar o número de espécies encontradas e coletar material para exames na Universidade de São Paulo (USP). Uma das participantes foi a bióloga Adriana Ruckert, que estuda os animais há 16 anos.

"Sou apaixonada por eles, são fascinantes", diz ela, que não sai de casa sem pelo menos algum brinco, colar ou anel que remeta ao mamífero da ordem Chiroptera, palavra que pode ser lida como "mãos que se transformaram em asas".

Em meio ao belo bosque de árvores do parque, durante o trabalho de montagem das redes de captura, Adriana dá explicações sobre os morcegos e desmistifica o temor em relação a eles.  Ela conta que estão divididos em duas subordens: Megachiroptera e Microchiroptera. A Megachiroptera contém apenas a família Pterodidae, que está presente no Velho Mundo (Africa, Asia e Oceania). São as chamadas "raposas voadoras", morcegos gigantescos que se alimentam de frutas e possuem uma envergadura de incríveis um metro e setenta centímetros. São comuns alguns vídeos na internet dos filhotes desses animais sendo amamentados com mamadeiras. "No Brasil não há morcegos desse porte", diz Adriana.

Tudo que é restrito na subordem Megachiroptera é amplo na Microchiroptera - só na cidade de São Paulo, são 43 espécies catalogadas. "Um número considerável se levarmos em conta o tamanho da urbanização em uma cidade como a nossa", ressalta Adriana. "Eles são animais sinantrópicos, que aprenderam a conviver com o homem, independente deste querer ou não sua presença".

São três as famílias presentes na capital: a Molosidae, a Vespertilionidae e a Phyllostomidae. Com hábitos variados de alimentação, os mais comuns são os insetívoros, que consomem mosquitos, moscas, besouros entre outros. "Alguns autores citam que eles podem comer mais de 1 mil insetos em uma só noite", destaca Adriana, ressaltando o papel que o animal exerce no equilíbrio ambiental.

Segundo Enrico Bernard, presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo de Quirópteros (Sbeq), os morcegos que comem insetos são capazes de comer até metade do próprio peso. "Mas isso varia de acordo com a espécie, o sexo e o tipo de inseto."

Existem também os frugívoros, que se alimentam de frutas das mais variadas, como manga, jabuticaba, nêspera, jabuticaba, pitanga e outras. Os nectarívoros se alimentam de néctar. Estes últimos são muito importantes como polinizadores. Diversas árvores dependem deles para serem polinizadas. Flores que exalam seu perfume durante a noite geralmente atraem morcegos. Mais difíceis de serem encontrados na cidade há os carnívoros, que se alimentam de pequenos roedores e de anfíbios e os piscívoros, que se alimentam de peixes. Além desses há os temidos hemátofagos, que se alimentam de sangue e são encontrados em regiões de "borda" da cidade, como áreas periféricas, com uma predominância maior de árvores.  

O levantamento mais atualizado sobre o animal aponta que, no mundo, há 1.411 espécies de morcego, de acordo com o presidente da Sbeq. No Brasil, são 182 espécies confirmadas. "O que mostra que o Brasil tem uma riqueza muito alta de espécies."

Bernard, que também é  professor associado do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que o morcego é um animal estigmatizado, principalmente pela falta de conhecimento da população sobre as contribuições do animal para a natureza e o ser humano.

"Das 1.411 espécies, só três se alimentam de sangue e as três ocorrem no Brasil. O que acontece é que, geralmente, ocorre um alarmismo muito grande quando há mordidas. A gente acabou de concluir um projeto de mestrado para ver o que eles têm comido e encontramos que eles se alimentavam de dez pragas agrícolas, uma mosca que é vetor para doenças de bovino e três mosquitos vetores de doenças para humanos, inclusive do grupo que transmite a malária."

No parque, a equipe de pesquisadores monta as redes em uma área próxima às frondosas copas de árvores e ao lago. "Está vendo essa movimentação de pássaros em busca de insetos em cima do lago? Daqui a pouco, serão os morcegos que estarão na caça deles, basta a noite chegar", aponta Adriana para a água, enquanto um vai e vem de passarinhos emoldura o entardecer no parque. A colocação da rede precisa ser feita em um horário específico, bem no final da tarde. Não pode ser mais cedo, pois corre o risco de muitos pássaros caírem na "armadilha". "Pássaros são bem mais agitados do que os morcegos quando caem nas redes. Difícil tirá-los, ficam bem mais estressados", explica Débora Cardoso de Oliveira, integrante da equipe. E, mesmo com todo o cuidado, dois pequenos Corruíras engancharam-se no emaranhado de fios. Nesse momento, entrou em ação o biólogo Marcus Azevedo, que, com muito cuidado tirou os dois e rapidamente os devolveu à natureza.

Os morcegos começam a aparecer nas redes, a maior parte deles da espécie Myotis nigricans, muito pequeninos, medindo cinco centímetros de comprimento e pesando cerca de cinco gramas. Durante a noite, apesar de enxergarem muito bem, se guiam principalmente pelos sons que eles próprios emitem e que voltam para eles. "É uma espécie de sonar natural que possuem, semelhante ao sistema de um submarino. Com isso tornam-se excelentes caçadores", diz Adriana. Eles também têm a característica de viver muito tempo, em média 20 anos. Ao contrário dos roedores, que vivem pouco e têm muitos filhotes, os morcegos vivem muito e deixam bem menos descendentes que a Ordem Rodentia, do qual pertencem os ratos. De cada gestação nasce apenas um filhote.

A sala de administração do parque é transformada em um "laboratório de campo" pelos pesquisadores. Os animais capturados vão sendo pesados e coletadas amostras de saliva, sangue e fezes dos animais. Com a bióloga Adriana, trabalha o veterinário Marcelo Schiavonardi, da Divisão de Fauna Silvestre da Secretaria do Verde e Meio Ambiente. Responsável por armazenar as amostras, elas serão levadas depois para o laboratório  da USP no Departamento de Microbiologia e Medicina Veterinária. Exames são feitos para avaliar a saúde dos morcegos com relação aos vírus da raiva e do corona vírus e também para fazer um levantamento das espécies que vivem na área urbana da cidade. Além desse parque, um clube na beira da Represa Guarapiranga, na zona sul da cidade, é utilizado para coletar os mamíferos. "A cada ano mudamos os locais de captura dos morcegos", explica o veterinário.

A equipe trabalha de modo intenso até às 21 horas - eles chegaram às 16h30 para começar a montagem das redes. São coletados 11 morcegos insetívoros da espécie Myotis nigricans, um morcego nectarívoro Glossophaga soricina e um morcego frugívoro Artibeus lituratus. Este último a grande "estrela" da noite, foi capturado quando os biólogos já pensavam em começar a terminar os trabalhos. Trata-se de um morcego imponente, um dos maiores encontrados em área urbana.

"É uma fêmea e está amamentando", explica Adriana, admirada com o animal em mãos. A dupla experiente de bióloga e veterinário são auxiliados pelos estagiários da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, Pedro Henrique e Anna Yves, que a cada animal estudado mostram seu interesse e amor pelos morcegos.

O aprendiz de biólogo Pedro, no entanto, emociona-se mesmo ao soltar um dos pequenos Myotis nigricans após a coleta das amostras. "Eles são lindos demais", finaliza. Todos os animais são devidamente soltos na natureza após o estudo.

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