Novos abrigos ainda não têm estrutura. Observatório das metas.

Núcleos de atendimento da população de rua da gestão Kassab motivam críticas de vizinhos e de usuários; nas unidades, falta até água

DIEGO ZANCHETTA, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2012 | 03h03

Inaugurados para substituir os albergues fechados em 2009 no centro de São Paulo, os novos abrigos e núcleos de atendimento a moradores de rua da Prefeitura funcionam com atendimento precário e pouca infraestrutura. Além dos problemas relatados por usuários, parte dos abrigos fica em áreas residenciais, o que causa uma série de reclamações de vizinhos e comerciantes locais.

A área da Assistência Social é o tema da segunda reportagem da série que o Estado publica mensalmente sobre o plano de metas de Gilberto Kassab (PSD): a Agenda 2012. O objetivo é analisar a execução das principais promessas feitas pelo prefeito e marcadas como cumpridas no site do plano. Em março, a reportagem analisou a situação de parques abertos há um ano e constatou que parte continua em estado precário, com mato alto e sem segurança.

Agora, o alvo foram 10 dos 13 novos abrigos que entraram em funcionamento na capital nos últimos três anos. Eles constam na meta número 33 do governo, que prevê a inauguração de 14 "centros de serviço de higiene pessoal" para a população de rua até dezembro de 2012. Só falta um abrigo em Santo Amaro, na zona sul, cuja inauguração deve ocorrer em agosto.

Mas os usuários dos serviços dos abrigos e os vizinhos têm pouco a comemorar. Todos são unânimes só na hora de elogiar a separação por três grupos de usuários: mulheres com crianças, idosos e homens adultos ficam em núcleos diferentes - maior mudança na política de assistência aos moradores de rua na capital em 40 anos.

O problema é que esses equipamentos novos não têm nem água potável. É o caso da moradia para 219 idosos carentes aberta na Avenida São João, nos cinco andares do antigo Hotel Atlântico. "A água é de torneira, não temos médico, só servem sopa todos os dias. Sempre tem gente que passa mal, doente, e não há enfermeiro nem para tirar a pressão das pessoas", reclama José Rodrigues de Oliveira, de 67 anos, há dois meses como "hóspede" na moradia.

O modelo de abrigo implementado para idosos, que antes ficavam no mesmo espaço de outros moradores de rua, era para ser referência nacional, segundo declarou em abril de 2010 a secretária de Assistência Social e vice-prefeita, Alda Marco Antonio. Na Morada Nova Luz, na Rua Helvétia, para pessoas com mais de 55 anos, porém, os usuários endossam a reclamação de seus albergados vizinhos da São João: falta assistência e acompanhamento médico para dezenas de idosos com problemas crônicos de saúde.

Descentralização. Outra mudança foi a abertura de abrigos que oferecem refeições e dormitórios aos moradores de rua em bairros com perfil residencial - anteriormente, os albergues se concentravam no centro e nos arredores. Muitos usuários que passam pelas tendas da Prefeitura na Bela Vista e na região do Parque d. Pedro II acabam encaminhados para esses núcleos de bairros, onde há refeição.

É o caso do centro da Rua Doutor Gabriel Piza, em Santana, na zona norte, que serve café da manhã e almoço. Como muitos catadores de papelão e moradores de rua passam o dia sentados na calçada na frente do abrigo, comerciantes, moradores e funcionários de uma escola vizinha reclamam da degradação do espaço. "O pessoal carente só entra no abrigo para comer. Eles passaram a morar aqui na rua. A Prefeitura deveria ao menos montar um dormitório para eles por aqui mesmo, e não deixá-los nas calçadas", reclama Mércia de Souza Arruda, de 51 anos, dona de uma loja de material escolar.

Se quiser um lugar para dormir, o morador de rua que se alimenta ali ainda pode ser encaminhado ao Centro de Acolhida Canindé, também na zona norte. O problema é que no local, apesar de ter dormitório, os usuários também passam o dia nas ruas do bairro, pedindo esmolas, segundo reclamam os vizinhos. "Quando chegam e são avisados de que cachorro e carroça não podem ficar aqui dentro, muitos desistem e acabam esticando seus colchões na calçada mesmo", admite um funcionário do núcleo da zona norte, destinado a homens adultos.

Nos espaços reservados para mulheres que sofreram violência doméstica, muitas delas com filhos, a reclamação é sobre a distância dos abrigos de seus bairros de origem. No centro de acolhida para mulheres Nova Esperança, na Vila Prudente, zona leste, elas acabam desistindo de ficar no local por causa do atendimento precário e da distância da casa de suas famílias. "Você passa o dia todo assistindo TV, sem ter nada para fazer. Pelo menos poderiam dar algum curso para nós", reclama Janete Pires, de 28 anos, que diz ter desistido de permanecer no núcleo, após dois dias no local.

Tendas. Nas duas tendas inauguradas no Parque d. Pedro II, a promessa do governo era de que funcionariam no local oficinas de arte e serviços de escrita de cartas. Além disso, 15 educadores sociais ficariam encarregados de encaminhar usuários para atendimento médico. Os moradores de rua também poderiam entrar nos programas de transferência de renda do governo municipal e, se quisessem, dormir no local durante o horário de funcionamento ou à noite.

A proposta original não foi cumprida. O serviço se limita a oferecer aos usuários, das 8 às 21 horas, uma TV, cadeiras de plástico e 12 banheiros químicos com chuveiro. Pela tenda passam cerca de 800 pessoas por dia e muitas ficam, à tarde, dormindo no gramado do espaço. Também não é oferecida nenhuma refeição para os usuários.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.