Novas vagas serão criadas em prédio afastado do 'fluxo'

Estabelecimento nos Campos Elísios deve receber grupo de até 40 beneficiários em fase final de recuperação

O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2015 | 02h04

A segunda etapa do programa De Braços Abertos entrará em vigor nas próximas semanas. Entre 20 e 40 vagas serão criadas para um grupo de beneficiários que atingiram a fase final de recuperação, considerados mais "independentes" do programa que emprega e abriga usuários de crack.

A Prefeitura de São Paulo negocia firmar um convênio com um hotel na Alameda Barão de Limeira, número 814, na região central da capital, que tem 18 quartos e capacidade para receber pelo menos 80 beneficiários. A localização do estabelecimento escolhido, nos Campos Elísios, foi uma estratégia da Prefeitura para afastar da região da Luz, na Cracolândia, os usuários que têm apresentado melhores resultados.

Redução. Uma das beneficiárias transferidas pode ser Ana da Silva Nassi, de 31 anos, que trabalha na varredura de rua e mora no Hotel Lucas, na Alameda Dino Bueno. Ana está em recuperação, reduziu o consumo do crack e, com frequência, enfrenta crises de abstinência. Em um dos piores ataques, ela chegou a cortar os pulsos do marido, Anderson Henrique Dias, de 39 anos.

Há um mês, ela foi transferida de andar no Hotel Lucas, passando a dividir espaço com duas beneficiárias que, segundo ela, usam crack dentro do quarto. "Não sou mais usuária de crack, mas acabo usando. Fica difícil parar vendo outras pessoas fumando perto de você. Pior ainda é que esse hotel fica de frente para o fluxo (região da Luz com intenso uso de crack)", queixa-se.

Ana reclama ainda que as colegas deixam sobras de comida por dias no quarto, que acabam acumulando larvas. "Uma pessoa desanimada acaba te desanimando também. Aqui a pessoa se sente praticamente esquecida", afirma Anderson, marido de Ana.

Há duas semanas, Ana comprou uma televisão e pôs no quarto. Encontrou uma tábua de passar na rua e passou a usá-la como mesa. "Aos poucos, a gente vai tentando montar o nosso lugarzinho. Mas as coisas aqui não duram muito tempo. Já roubaram minhas roupas e, nesses dias, jogaram água na minha TV."

Faturamento. O proprietário do hotel na Barão de Limeira, David Ferreira, já conhece os hóspedes do programa De Braços Abertos. Ele também é dono do Hotel Lucas, credenciado desde o início do projeto.

Segundo os cálculos de Ferreira, o valor oferecido pela Prefeitura para a hospedagem mensal dos usuários mais avançados varia em torno de R$ 23 mil. "Para mim, não dá. O faturamento do meu hotel é de R$ 25 mil. Além disso, vai prejudicar a nossa relação com a vizinhança, que não gosta de usuários de crack na rua", afirmou.

Outro receio de Ferreira é de que os beneficiários destruam os bens do estabelecimento. "Se a Prefeitura se comprometer a devolver o hotel exatamente do jeito que estava, aí tudo bem." O proprietário afirmou ter gastado cerca de R$ 80 mil com a reforma do hotel na Barão de Limeira. / J.D.

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