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Nova York contra o fumo

Na última semana, o Conselho da cidade de Nova York aprovou projeto de lei que proíbe a venda de cigarro para menores de 21 anos, a exemplo do que já ocorre com o álcool em todo o país. Até então, o limite era 18 anos. A medida tem o objetivo de diminuir ainda mais o número de jovens fumantes e passará a vigorar seis meses após ser sancionada.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2013 | 02h02

É mais uma estratégia na luta contra o cigarro, que vem ganhando corpo mundo afora. Os especialistas acreditam que a redução do número de fumantes observada em diversos países não é resultado de uma medida isolada e, sim, de um conjunto de ações e experiências que vão sendo acumuladas.

Proibição do fumo em locais fechados, tratamentos mais eficazes para quem quer largar o cigarro, preços mais elevados, eliminação de propaganda e de patrocínio em eventos culturais e esportivos, imagens de advertência nos maços, embalagens menos atraentes (sem cores e marcas), aumento da percepção da população sobre os riscos ligados ao tabagismo e a restrição do uso de aditivos (aromas) são algumas dessas medidas. Alguns países implementaram, também, a proibição do cigarro em espaços públicos abertos (como parques e praias) para reduzir a eventual influência que esse comportamento poderia ter sobre os jovens.

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, identificado com as políticas para redução do tabagismo, deve sancionar a lei em breve. Em sua administração, a cidade se livrou do cigarro em locais fechados e em espaços públicos. A taxa de adolescentes que fumam caiu de 17,5% (2001) para 8,5% (2011).

Em se tratando de comportamento jovem, não adianta apenas proibir a compra das substâncias por meio de uma lei para resolver a questão do consumo. Em relação ao álcool, por exemplo, ainda nos EUA, apesar da restrição da venda para menores de 21 anos, estima-se que quase 25% do consumo de bebida no país ocorra justamente entre os adolescentes. Se o uso do cigarro está caindo entre os jovens americanos é sinal que as demais ações devem estar tendo um resultado somatório.

Um efeito colateral bastante positivo da diminuição do consumo de cigarro em diversas cidades do mundo e, principalmente, da proibição do fumo em locais fechados, foi uma redução do número de ocorrências cardiovasculares nos hospitais e salas de emergência. Enfartes e AVCs (derrames) parecem cair mais nos locais que conseguem adotar leis mais restritivas. Nesse sentido, em teoria, se menos jovens começassem a consumir regularmente o cigarro, o impacto para a saúde pública poderia ser ainda maior nos próximos anos.

No Brasil, o consumo de cigarro também tem caído de forma importante nas últimas décadas. Os últimos dados da pesquisa do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) revelaram que 12% da população adulta é fumante hoje no País. Em 2006, esse número era 15%. No meio da década de 1980, quase um quarto da população adulta fumava por aqui. A cidade que hoje registra maior número de fumantes é Porto Alegre (RS), com quase 18% da população adulta. Em São Paulo, essa taxa é de 16%.

A diminuição de consumo de cigarro entre os mais jovens é mesmo um desafio no mundo todo. Embora a tendência de queda no Brasil pareça ser consistente e esteja atingindo todas as faixas etárias, o jovem é sempre uma camada da população mais suscetível à experiência com o cigarro e mais propensa a desenvolver dependência.

Em Nova York, por exemplo, as pesquisas mostram que 80% dos fumantes da cidade começaram antes dos 21 anos. No Brasil, admite-se que 90% dos fumantes adultos começaram sua experiência antes dos 18, comprando irregularmente seu cigarro, já que a lei por aqui também proíbe a venda para menores. Na França, a Missão Interministerial de Luta contra Drogas e Toxicomania estima que 31,5% dos jovens de 17 anos fumem regularmente (uma das taxas mais elevadas no planeta). Ou seja, não basta proibir por lei. O jovem tem de perceber o cigarro como um potencial agressor para sua saúde e qualidade de vida.

* É PSIQUIATRA

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