Mouco Fya/ Estadão
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A condenação das ruas: existir e ser invisível

Número de pessoas que vivem sem um teto chega a 15,9 mil, segundo a Prefeitura, ou 22,7 mil, de acordo com entidade. Poucos conhecem suas histórias

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Nem mesmo a ameaça de ter o corpo queimado faz com que Misael troque a vida na rua e a companhia do cão Faísca por um teto. “Para morar em casa, você tem de enfrentar ladrão”, diz o morador da Avenida 9 de Julho. A alguns quilômetros dali, o mineiro Paulo explica que privações fazem parte da vida no Vale do Anhangabaú. “Se Jesus sofreu, por que o ser humano não pode sofrer?”, pergunta ele, que foi para as ruas há 14 anos, após enfrentar problemas em uma ação trabalhista. 

Além de dificuldades financeiras, impasses familiares fazem com que muitos saiam de casa, como aconteceu com Thiago Felipe da Silva, que leva a vida nas ruas do Glicério. Aprendeu cedo o que era independência após a convivência com a mãe, viciada em crack, ficar insustentável. “Da relação com a família, eu cansei, tá ligado?” 

As histórias se repetem e os números as reforçam. Em quatro anos, essa população cresceu 9,8% e chegou a 15.905 moradores de rua, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), feita em parceria com a Prefeitura. Para o Movimento da População em Situação de Rua, os dados são irreais – seriam 22.790 pessoas nessa condição.

Para encontrá-las, o Estado percorreu ruas do centro da capital – onde vivem mais de 50% das pessoas em situação de rua – e ouviu, durante uma semana, histórias daqueles que adotaram as calçadas como moradia.


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‘Se eu conseguisse um albergue, me arrumava’

</p> <p style="margin-bottom:.0001pt;"><span style="white-space:pre-wrap">Anos depois eu fui pra Juquiá. Lá, achei um parque de diversões e fui vender pirulito. A dona do parque me perguntou o que eu queria e eu disse que tava</span><span style="white-space:pre-wrap"> no mundo. Viemos embora pra Vila Galvão, em Guarulhos. Dali, mudei pro Jardim Tremembé. De lá, fomos pro Vila Albertina e, depois, voltamos pro Vale do Ribeira, pra Eldorado Paulista. Mas um dia enjoei do parque também.</span></p>

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Eduardo Santana Filho

“Eu sou de Santos. Quando eu nasci, minha mãe se separou do meu pai e fui morar no Vale do Ribeira, onde me criei. Morávamos eu, minha mãe, minha irmã e dois irmãos. Depois que minha mãe faleceu, fugi de casa, porque minha irmã me maltratava muito. Eu tinha 12 anos. Lá no Vale do Ribeira, aos 12, você trabalha, carrega banana… Lá tem serviço. Morei com uma família que me empregava e me dava comida.

Vim pra São Paulo durante a Copa de 70, ainda garotão. Eu não conhecia São Paulo, vim bater em Vila Albertina, onde morava uma família que eu tinha ajudado quando estava no parque a vender churrasquinho. Me ‘agasalharam’ lá.

Não lembro o ano em que vim morar na rua. Antes de morar aqui [no Glicério], eu estava no Grajaú e aí me mandaram pra Igreja da Nossa Senhora da Paz, que aceitava. Quando eu cheguei aqui, tinha um cara que me conhecia e aí comecei a morar na rua.

Sou separado da minha mulher desde 77. Nunca mais vi meus filhos. Eu os deixei crianças. Mas eles nunca vieram atrás de mim porque eu não tenho endereço. Se eu conseguisse um albergue, me arrumava. Eu recebia bolsa-família, essas coisas, mas roubaram meus documentos.

É cheio de albergue, só que sem encaminhamento você não entra. Tem que ter uma pessoa para você entrar. Sei lá, eu também não entendo muito. O difícil é encontrar essa ajuda. Tem tenda aí que só vale para pernoite, mas você tem que ficar na fila, tomando chuva, até chegar o horário de você entrar. De dia de semana eu almoço no Bom Prato e banho eu tomo na tenda, de vez em quando. Hoje eu mandei cortar a barba. Dei R$ 2 e o cara passou a maquininha. Eu preferia ir pro albergue.

Eu cato latinha na rua, durante a semana. Sábado e domingo não tem. Sou bem respeitado por isso. Eu faço dois bairros só: Cambuci e Aclimação. Todo dia fazendo isso aí, você fica conhecido. O povo acostuma com você, sabe quem você é, daí te ajuda. Se eu vou pra outro bairro em que não me conhecem, aí me maltratam.

Nunca senti nenhuma dor, mas eu peço a Deus que quando tiver, que Ele me leve. Não quero morrer de tiro, nem de facada… Nem com dor. ”

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'A sociedade não quer ver quem mora na rua’

O vício da mãe por crack o fez sair de casa atrás de paz; Thiago guarda dinheiro do que vende para um dia ter uma sua própria residência

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Thiago Felipe da Silva

“Hoje eu tô aqui porque eu quero. Da relação com a família eu cansei, tá ligado? Cansei de sempre depender de mim. Desde o Nike que eu uso até o dinheiro que eu pego uma condução. Eu sempre fiz meu corre, fiz por onde, mas nunca tive aquele valor. Aí, depois que eu fiquei ‘de maior’, eu optei por fazer meu corre, viver minha vida, não depender de parente. Eu me joguei.

Eu vim pro centro porque aqui eu consigo trabalho, dinheiro... Do lado da minha família é só crítica. E eu venho de uma família pesada, conturbada. Minha mãe é viciada em crack e ela é o pilar da minha casa. Então o pilar não tava firme. Acabou me desestruturando, me distanciando. A convivência com ela era boa, até chegar num nível que eu não aguentava mais, porque gerou agressão. Ela veio dizer que eu agredi ela, eu nunca fiz isso. Não bato em nenhuma mulher, nem com uma rosa.

Meu pai de sangue eu nunca fui atrás. Não deu valor pra mim, não me deu o nome dele. Agora, meu pai que deu meu nome mora na zona norte, mas aí ele tem a vida dele. Eu procuro não procurar.

Tô aqui, mas eu vendo meus negócios. Faço minhas correrias, sempre tenho dinheiro no bolso. Tive que me distanciar para ter um pouco mais de paz e ter o que eu tenho. Não é muito. Não tenho carro, não tenho uma casa, mas eu tenho paz pelo menos.

Viver na rua é normal, desde que você saiba viver. Cada um faz seu corre. Eu vivo na rua, mas eu não vivo parasitando. Compro e vendo aparelho de celular, carregador, bateria. Não furto nada. Compro com nota fiscal e revendo.

Alimentação eu tiro do meu bolso. Tem muita ONG que dá marmita, é legal. Mas eu já não posso comer muito esses bagulhos porque eu passo mal. Às vezes eu compro uma marmitex ou faço o rango na lenha. Eu tenho panela, colher, faca. Gosto de fazer minha comida.

A minha expectativa é sair daqui. Eu tô guardando dinheiro pra ver se eu compro uma casa. Já tive uma casa minha, já aluguei em pensão, invasão… Mesmo assim, eu prefiro dormir na rua, na barraca que eu comprei, do que em albergue. Eu não gosto de ficar em lugar com muita gente, ainda mais gente que eu não conheço. Aqui eu conheço quem tá do meu lado.

O problema da sociedade com quem mora na rua não é nem questão de cansar de ver, é de não querer olhar. É de muito tempo que não tem amor ao próximo, cada um pensa em si próprio. Tem muita gente que vai ali naquela igreja, ajoelha… Mas na hora que vai passar aqui pelo farol, passa para o outro lado. Se dizem fiéis, humildes, da paz, mas de paz não tem nada. Só deles atravessarem a rua já é um julgamento.”

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‘Minha família é rica. Estou aqui porque quero’

Aos 26 anos, Juliana saiu de casa para não magoar a família; na rua, acha que encontrou a liberdade que sonhava.

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Juliana*

“Faz de três a quatro meses que estou na rua. Nasci em Jundiaí e agora tô aqui na Praça da República. Vim pra rua porque minha cabeça era diferente da cabeça da minha família. Então, pra não fazer eles sofrer, eu vim pra rua. Eu nasci diferente, eu gosto desse ritmo e eles sofriam muito devido à minha escolha.

Todo dia eu tô maquiada, sempre fui vaidosa. Eu tinha dinheiro, só usava roupa de marca. Acho importante continuar bonita. As pessoas ficam de queixo caído: ‘Ah, mentira que você mora na rua mesmo’. Minha família é bem de vida. Eu tinha vida de rainha, tô aqui porque eu quero. Estava morando numa invasão e conheci uma pessoa que eu gosto muito. Ele não gostava de onde eu estava, daí viemos pra rua. Larguei até um lugar que eu consegui sozinha.

Todos a quem você perguntar vão te falar que eles têm alimentação todo dia, doação. Só passa frio quem não vai atrás. São Paulo é muito rico de doação, é a madrugada toda. Eu moro numa barraca de acampamento, onde todos moram, ali no Anhangabau. Ninguém passa ‘veneno’ nenhum na rua, só quem fica acomodado. Às 14h é hora da marmita. É ‘A’ marmita. Todo mundo compra e a gente ganha. É fácil!

Foi na rua que eu quebrei minha cara. No começo, eu tinha uma cabeça muito pequena e desprezava essas pessoas, só que quem tá na rua é quem mais me ajudou. Tem muito pilantra, muita maldade, e já passei por várias situações de morrer, mas conheci pessoas que tiram do corpo delas pra te dar. Isso daí é pra aprender, porque eu sempre tive vida boa.

Eu achava que era um bicho de sete cabeças viver na rua. Mas não é. É uma liberdade única que você tem. A maioria tá aqui porque decepcionou a família e saiu de casa para não fazer sofrer, mas as pessoas mal sabem e acham que é safadeza. A distância machuca, mas se você está perto e não pode fazer feliz, é melhor se afastar. Isso é o amor.

Minha única dor é meu filho, do resto eu não tenho saudade. Eu tenho dois filhos, mas tem um que toca meu coração, o Cauã. Não que eu não ame o outro, mas esse é quem faz todas as minhas noites serem terríveis. Queria voltar a ver meu filho. Mas eu não posso porque ele está com o pai dele. Ele tá melhor lá, não posso tirar ele da segurança pra trazer pra rua, tenho que ter um lugar fixo. Meu sonho é que meu filho esteja bem, o resto eu corro atrás.”

*Nome fictício, a pedido da entrevistada.

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‘É mais fácil pedir do que roubar’

Bruno, Eduardo e Edson se conheceram na rua; há três anos são a companhia e a proteção um do outro.

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Bruno José da Silva

“Meu nome é Bruno José da Silva e o vulgo é Shayene. Tenho 25 anos. O cachorro chama Pitoco. Eu tenho ele faz mais de cinco semanas. Acostumou comigo, veio comigo. Eu estava chorando por causa de cachorro, por causa de gatinho pequenininho, e Deus abeçou eu e trouxe ele pra mim.

Eu moro na rua há mais de três, com eles. Vou falar a verdade pra todo mundo escutar: Eu sai de casa porque minha mãe não aceitava minha opção sexual e me assumi na rua. Ela não aceitava e, na rua, me aceitam.

Minha palavra não faz curva. Sou de Feira de Santana, na Bahia. Sou um acarajé quente, bem quente. Não tenho medo de nada. Vira e mexe eu vou pra casa, agora no Sul de Minas, porque minha mãe me aceitou, graças a Deus. É isso que prevalece. Eu quase quebrei ela no pau por causa de preconceito, mas mãe é mãe e é uma só, né? O forró 18, o Preguinho, é meu e dela. Fica lá na Rodovia Fernão Dias. É um forró lascado, é doido, daquele jeito divertido…

Eu trabalhava em Aparecida do Norte. Eu era organista, músico. Sabe por que eu perdi a profissão? Por um gole de cachaça. Mas eu vou conseguir tudo de volta, se Deus quiser. Antigamente eu não bebia nem fumava, hoje eu bebo mesmo. Bebo por causa do vício, não por ser mais fácil. Nada na rua é fácil.  

A vida na rua é muita humilhação. Você pede um pão e a pessoa não dá. Eu sou nordestino, lá não tem miséria. Agora, em São Paulo, as pessoas tudo ricão, que tem dinheiro e tudo, discriminam a gente. Quando morrer vai levar o que? Vai levar prédio, dinheiro?

Também tem muitas pessoas boas em São Paulo. Tem gente que ajuda, dá comida, traz a roupa, sopa… Mas tem o inferno do rapa. Já perdi muitas coisas por causa dos polícia, não quero perder mais.”

Eduardo Cerqueira

“Eu sou do Espírito Santo, terra do Roberto Carlos. Vou fazer 42 anos, sou o mais velho deles. Faz 24 anos que moro na rua. Depois que eu larguei minha ex-mulher, peguei pavor de ‘periquita’. Só gosto de travesti e homossexual. Não saí de casa por preconceito e minha família até me chamou para eu voltar.

Eu fiquei muitos anos na Cracolândia. Usei todo tipo de droga, só não apliquei heroína. Mas eu pensei bem e falei: ‘Isso não é pra mim, isso não tem futuro não’. Fui parando devagar e consegui. É só olhar pra cima, pro céu, e pedir, porque Ele sempre vai estar do nosso lado.

A vida na rua é difícil. Sabe como eu faço para conseguir um rango? Às vezes puxo carroça. Eu não cato latinha, mas cada um com seus problemas,né? E também vou pedir pra restaurante. Alguns dão, outros jogam fora e não dão nada pra ninguém. Mas é mais fácil pedir do que roubar.

A GCM [Guarda Civil Metropolitana] já tirou muita coisa nossa. Bolsas eu já perdi até a conta de quantas já me levaram. E no abrigo não dá. Lá você pega piolho, pega de tudo, porque é tudo misturado. Mas eu não tenho medo de ficar na rua não. Tenho fé em Deus. Eu rezo, rezo pra quem tá preso, pra quem me fez mal…

Eu queria ver meus filhos e meus netos. Tenho duas netas e um neto. Se eu fosse prefeito, eu ia fazer um prédio e colocar os que mais precisam. Quem tem dinheiro fala que a gente é vagabundo, ladrão. Uns mexem com droga, mas aqui tem muito pai de família passando fome.”

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‘Enquanto um te humilha, dez apoiam’

Há 30 anos em São Paulo, o mineiro Paulo foi morar nas ruas há 14 anos; hoje, mora no Vale do Anhangabaú, que ajudou a construir em 1989.

O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Paulo

“Aqui eu sou palmeirense, mas lá em Belo Horizonte eu sou Cruzeiro. Eu vim pra São Paulo trabalhar há 30 anos. Vim só com a passagem. Trabalhei de pedreiro por mais de 10 anos. Vim parar na rua por causa de um problema que eu tive. Processei o advogado por uma causa trabalhista em 2003 e a polícia do Brasil inteiro está atrás de mim. Entre albergue e rua tem mais de 14 anos, mas há 12 que é só rua.

Trabalhei na construção disso aqui, que era avenida, em 1989. Eu gostava de São Paulo como era quando eu cheguei aqui, quando você trabalhava pra comer. Hoje em São Paulo ninguém quer saber de trabalhar mais não. ‘Ah, paga pouco.’ Mas eu já trabalhei e já vi pessoas trabalharem a troco de comida. Esse negócio de entidade só destrói a vida da pessoa. Deveria ter uma lei que obrigasse a pessoa a trabalhar a troco de comida. Porque hoje você pode trabalhar a troco de comida, amanhã você pode estar trabalhando para ganhar milhões.

Sair  da rua eu não sei, é complicado. Vou vivendo. O dia que chegar a hora de ir, eu vou, mas não antes. Tem pessoas preconceituosas, mas não é todo mundo também. Tem pessoas que humilham, mas você não vai julgar todos, né? Enquanto um está te humilhando, às vezes, há dez que estão te apoiando. Sempre tem as pessoas que prestam e as que não.

Se você puder agredir a pessoa na hora que tá com preconceito, eu até que agrido. Um camarada me chamou de maloqueiro e eu parti pra cima dele. Se eu tô numa vida boa e vejo a pessoa numa má situação, não posso falar isso pra ela, porque eu tô humilhando. Todo mundo tem que se respeitar.

A melhor coisa para você conhecer as pessoas é passar por isso. Se você tem uma vida farta, todo mundo é seu amigo, você nunca vai ver as pessoas ruins no meio. Você só enxerga numa situação dessa. Aí, você fala: ‘aquele fulano presta e aquele ali não presta’. O bom da vida é você ter dificuldade. Se Jesus sofreu, por que o ser humano não pode sofrer? Se eu for morrer nessa vida, eu morro feliz. Ou você acha que eu mereço uma vida de fartura? Eu não mereço nada. Eu não mereço e ninguém merece.”

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‘Já ameaçaram colocar fogo em mim’

Misael foi o primeiro a encontrar o corpo do morador de rua Mauro, há um mês; desde então, ele assumiu a missão de cuidar do cachorro Faísca, que ainda sofre com a morte do dono.

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Misael

“Tem mais de 15 anos que eu moro na rua. E faz uns cinco ou seis meses que eu tô aqui no Viaduto Nove de Julho. Eu sou lá do Guarapiranga, mas vim pra rua por opção. Morar em casa não dá certo. Pra você morar em casa, você tem que enfrentar ladrão, bandido… Aqui na rua é mais fácil. Eu tenho medo também. Já ameaçaram de jogar querosene e jogar fogo.

Eu pego latinha, vendo papelão. Eu vou lá na rua de cima. Comprei essa carroça por R$ 400, mas ela fica parada aí por causa do colchão. A polícia nunca pegou nada meu. Lá na Sé limparam tudo, né? Ah, mas se pegar, pegou. Pra mim, não faz falta.

Aqui todo mundo me conhece, o pessoal passa e conversa. Sou conhecido pra caramba. Aquela senhora ali do bar me conhece. A Dona Maria também, ali atravessando a rua.  Eu não preciso sair pra procurar comida. O pessoal traz aqui.

Não sei te falar como é que é isso. Eu tenho uma casa lá no Guarapiranga e outra em Suzano. Mas eu prefiro ficar aqui. Eu não sei te explicar. Tenho um irmão no Tatuapé, na zona leste. Ele é advogado, bem de vida mesmo. Ele me chama, mas prefiro ficar com a carroça e esse cara aqui [um cachorro, de nome Faísca].

Encontrei o Mauro aqui parado, com os braços abertos. Não teve jeito. Agora o Faísca tá triste. Ele tem uma lembrança que você não sabe… O Mauro criou ele 11 anos. Ele tá com uns 12 anos. Olha o tamanho dele!

Dei o azar de vir aqui na hora, meu. Ele morreu do coração, morreu dormindo. Parou. Sabe quando o coração para? Eu fiquei a noite inteirinha aqui olhando o procedimento da perícia. A perícia vem, abre a camisa, corta calça, examina o corpo todinho. E esse cara ficou uivando aqui, latindo.

O Faísca  não entra em qualquer lugar. Ele é da rua. Ele só fica na rua. E eu fico com ele. Tira uma foto dele. Ele é mó barato! Esse cara é capa de revista, sabia? Ele tá na internet, tá na televisão.

Se eu queria que alguma coisa na minha vida fosse diferente? Não. Tá bom. Pra mim, tá bom. Aqui não falta nada. O mais importante é isso aqui, essa companhia. É mais que um colega, é um cão colega. Olha a cara dele. Eu não troco esse cara. Ele me adotou, ele me escolheu.”

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