Paulo Pinto/AE
Paulo Pinto/AE

Nova iluminação deixa calçadas da Paulista no escuro

Teste mostra que há duas vezes mais luz nas pistas que por onde passam os pedestres; Prefeitura diz que luminosidade melhorou

Nataly Costa e Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

16 Março 2011 | 00h00

Muitas vezes, mal dá para entender o que diabos seu Ignácio Munhoz está falando. Com seu jeitão italiano e gestos mais do espalhafatosos, o dono de uma banca de jornais perto do Parque Trianon, na Avenida Paulista, reclama de absolutamente tudo - da sujeira jogada na rua, dos clientes apressados e mal-educados, do time do Palmeiras, do sobrinho que lhe deve dinheiro, do calor, da chuva, da falta de chuva... Nas últimas semanas, Munhoz, de 64 anos, ganhou mais um assunto para discutir com seus braços para o alto.

"Eu não sei por que eles trocam uma coisa por algo pior", diz Munhoz, apontando para os novos postes da Avenida Paulista, instalados em janeiro para teoricamente melhorar a iluminação da mais conhecida via paulistana. "Ficou mais feio, a luz piorou e aqui na frente da banca ficou mais escuro."

O Estado convidou a arquiteta Esther Stiller, presidente da Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (AsBAI), para avaliar a iluminação da Paulista com um luxímetro - aparelho que mede a intensidade da luz no ambiente. O resultado técnico refletiu o que a percepção visual dos especialistas já denunciava: há duas vezes mais luz na rua que na calçada.

Segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), o nível mínimo de iluminância que uma rua pública necessita é de 20 a 50 lux (unidade de medida do luxímetro). Quando jogada em um piso preto, como é o da Paulista, a luz refletida para o olho humano cai para 3% a 7% desse valor, ou seja: os 30 lux medidos na calçada da Paulista se transformam em apenas 3,5 lux devolvidos para o olho humano.

"Isso é uma das causas da sensação de falta de luz. Além disso, quando você tem muita luz no centro e pouca aqui (na calçada), a sensação é de escuridão, porque enxergamos por contraste", explica Esther.

A comparação faz sentido: a iluminância medida no canteiro central, onde se concentram os postes e as pessoas só fazem rápidas paradas antes de atravessar, é mais que o dobro da calçada: 90 lux. E no meio da pista, onde passam os carros, 72 lux. "Onde precisa de menos, tem mais. Os carros têm farol, os pedestres, não."

Para Esther, os postes muito próximos criam um "cordão", dividindo a Avenida Paulista ao meio. "Há uma linha contínua iluminada em contraste com um trecho pobre de luz. O ideal seria criar ilhas diferenciadas de iluminação para cada parte da avenida", explica.

Os novos postes contam ainda com uma luz de LED azul no centro, que parece sem função. "É um adereço, meramente decorativo. Como luzinhas de árvore de Natal", afirma Esther.

Troca. Os 54 postes de concreto de 25 metros foram substituídos por 39 postes de aço de 20 metros e 15 de 12 metros. Já as lâmpadas amarelas de vapor de sódio de 400W de potência deram lugar a outras brancas de vapor metálico, de 315W. Mesmo com a Prefeitura de São Paulo insistindo que a Avenida Paulista está 425% mais bem iluminada, o que se vê são calçadas mais escuras, com diversos pontos onde é possível constatar que a luminosidade diminuiu. O custo foi de R$ 3,5 milhões.

"Eu sei que reclamo de tudo, mas é difícil não reclamar quando ficam fazendo besteira sem consultar as pessoas que são afetadas", diz Munhoz, o dono da banca de jornais.

Idealizador. Responsável pelo projeto na década de 1970 que deu uma identidade única à Avenida Paulista, o arquiteto e designer João Carlos Cauduro também coleciona críticas aos novos postes em "V" da via.

"A estrutura metálica até que é interessante, leve, mas lá em cima, quando ela se abre em outras hastes, estraga tudo", diz Cauduro. "Aquilo não deveria interferir na paisagem da Paulista, mas agora interfere demais. Eles criaram um desenho que não tem sentido, parece até uma decoração de Natal que esqueceram por lá."

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