Nova chefe do Conpresp quer mutirão nos tombamentos

Nádia Somekh promete desburocratizar o órgão, votar processos em 15 dias e quer verba federal e privada para patrimônio

NATALY COSTA, O Estado de S.Paulo

01 Março 2013 | 02h04

A preservação do patrimônio de São Paulo não pode mais ser tratada apenas com o recurso do tombamento. É preciso dar uma dimensão urbanística e tornar os prédios históricos economicamente atraentes, principalmente para o mercado imobiliário e a iniciativa privada. É o que diz a arquiteta Nádia Somekh, que assumiu nesta semana a diretoria do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) e a presidência do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Conpresp), do qual já era conselheira havia dois anos.

Nádia quer votar os processos em 15 dias - hoje, uma decisão sobre tombamento ou autorização de reforma pode levar anos na pauta do conselho. "Cerca de 60% do que está no Conpresp não é tarefa nossa, pode ser resolvido na Subprefeitura. Vamos fazer um mutirão e dividir em temas: tombamento, aprovação de projetos e regularização. Quero criar um balcão único com o Condephaat (órgão estadual) para que o munícipe entre com um só processo."

Ela também vai pleitear, com a ajuda do secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, a inclusão de São Paulo no Programa de Aceleração do Crescimentos (PAC) das Cidades Históricas, que oferece recursos federais para a recuperação do patrimônio. "Quero retomar esse diálogo com o governo federal para incluir a cidade."

Sobre as polêmicas da gestão anterior - como o tombamento do Cine Belas Artes e, mais recentemente, a desapropriação do imóvel -, Nádia diz que não gosta de usar o tombamento como "instrumento de coerção". E afirma já ter uma "estratégia" para tentar convencer o dono do imóvel de que o local pode ser economicamente atraente sem virar loja. "Já tem a Paulista inteira para fazer loja. Mas a desapropriação tem de ser o último recurso."

Formada na USP, Nádia acredita que o mundo inteiro já percebeu que a preservação histórica pode ser economicamente viável - e o setor imobiliário em São Paulo, aos poucos, se dá conta disso. "É preciso promover a valorização social e econômica dos bens históricos. Com a perda de identidade que veio da globalização, a tendência das cidades contemporâneas é de valorizar a memória e descobrir que o patrimônio é um ativo, gera valor agregado."

Conseguir investimentos da iniciativa privada é um dos desafios da gestão. "Quero recursos públicos e privados também. Tem de regular no Plano Diretor, mas o mundo inteiro já faz isso. Um exemplo é o South Bank, em Londres, que teve o patrimônio industrial recuperado pela iniciativa privada com apenas uma parte de recursos públicos." Nádia acredita que os bens tombados têm de estar inseridos em uma dimensão urbanística e não podem ser tratados individualmente.

Arco do Futuro. Ex-funcionária dos governos da então petista Luiza Erundina, hoje no PSB, e de Marta Suplicy (PT), Nádia é entusiasta do Arco do Futuro, projeto urbanístico da atual gestão Fernando Haddad (PT). Ela nega que a revitalização de áreas como a Mooca, com seus galpões tombados, vá destruir a arquitetura típica do local. "A seleção dos projetos urbanísticos vai levar em conta o critério da preservação."

Ela critica ainda o modelo de desenvolvimento de São Paulo. "Uma cidade de condomínios fechados é uma anti-cidade. Precisamos passar por uma sensibilização cidadã. Hoje, o dono de um imóvel tombado acha isso uma dor de cabeça. Se há uma educação patrimonial, isso passa a não ser desconfortável."

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