Nós na foto

Com o risco de você achar que sou mais um caso de brasileiro acometido de carência cívica, ávido por reconhecimento externo da nossa terra e gente, devo confessar que não resisto à leitura de quem escreva sobre nós. Nem precisa que seja para falar bem. Ainda quando pouco simpáticas, certas impressões soam deliciosas, além de iluminadoras de realidades nem sempre claras para quem esteja nelas mergulhado.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2012 | 02h02

Podemos não concordar, por exemplo, com o que registrou em cartas a compatriotas seus a poeta americana Elizabeth Bishop, nos 20 anos que aqui viveu, mas vamos admitir que ela não estava tão enganada ao anotar que a "mistura de bom gosto com gosto atroz é bem brasileira". Algumas de suas observações, convenhamos, são pelo menos divertidas: "Há uma espécie de obsessão com beleza - todo mundo vive descrevendo os olhinhos e narizinhos e queixinhos das crianças - e quando os vejo muitas vezes me decepciono. Mas o nível geral de beleza é um tanto baixo." Ou esta: "Já observei que os escritores daqui costumam aparecer em fotos deitados em redes, e talvez seja este o problema da literatura brasileira."

Veja se Elizabeth não tem razão: "Os brasileiros parecem adorar doenças. (...) É muito interessante adoecer e tomar remédio em português, e os brasileiros ficam na maior animação quando tem alguém doente." Nesse capítulo, vai ao ponto o diagnóstico da escritora: "O único órgão que a maioria dos brasileiros reconhece é o fígado; a gente chega a ficar enjoada de ouvir tantas conversas infindáveis sobre o estado do fígado de cada um."

O papo vem a propósito da leitura dos diários de outro escritor graúdo, o mexicano Alfonso Reyes, embaixador no Brasil de 1930 a 1936, período em que fez camaradagem vitalícia com um punhado de confrades brasileiros. Entre eles, Manuel Bandeira, que se inspirou no almoço de despedida do diplomata, no Jockey Club do Rio, para compor o "Rondó dos cavalinhos": "Os cavalinhos correndo, / e nós, cavalões, comendo... / Alfonso Reyes partindo, / e tanta gente ficando...".

Em seis anos de Brasil, o escritor mexicano se afeiçoou ao País e aos brasileiros, mas os primeiros tempos, pelo que conta, foram pouco animadores. "Mundo demasiado colonial onde as pessoas ainda não sabem viver e as casas são más", avaliou ele mal chegou ao Rio. Também não gostou da São Paulo de 1932, onde parece ter apreciado apenas um almoço no finado Mappin. "Falta de proporção e estilo em tudo, falta de urbanismo", disse Reyes da capital paulista, e fulminou: "Injustificadas pretensões de cidade".

O panorama social, no começo, tampouco lhe pareceu alentador, ao ponto de levá-lo a externar irritação - até mesmo física, aliás, pois Alfonso Reyes mais de uma vez relata estar às voltas com um prosaico picor "no pior lugar", nos recônditos de sua lanza.

"As amizades daqui são muito agradáveis porém muito superficiais", queixou-se. "Os escritores vivem na lua. Se interessam, por esnobismo, pela França. E seus assuntos e problemas me deixam indiferente."

Indiferente? Nem tanto, nem por muito tempo. Num livro de 1953, Memoria de Cocina y Bodega, Reyes repeliu com veemência o pouco caso com que na crônica "Variações sobre a cozinha nacional" o amigo brasileiro Ribeiro Couto se referira ao picadinho, torcendo ainda o nariz para uma suposta sobrecarga de condimentos do vatapá e da feijoada. "Mas ele se cala sobre a deleitável canja", protestou Reyes, puxando as orelhas culinárias de Ribeiro Couto: "Nada diz da farofa", que dá sentido aos "pratos picantes", nem do palmito com camarão, "uma combinação de alto estilo". Mas temperou: não deixava de ser inquietante "certo descuido do Brasil com respeito a suas tradições" nesse terreno.

No mesmo livro, Reyes nos critica por não sabermos preparar e saborear o café: "Em vez de tostá-lo, é frequente que o carbonizem; depois o desvirtuam com excesso de açúcar; e em seguida o engolem de um trago e sem degustá-lo, para que não esfrie. Mas queimar-se não é saborear."

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