Nos cardápios de Olavo Bilac, a vida da belle époque

O poeta que adorava banquetes costumava guardar menus de jantares (de muitos pratos) e festas no Rio da virada do século 20

MÁRCIA VIEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2011 | 03h06

Olavo Bilac era um bon vivant. Solteiro, o poeta e cronista tinha vida social intensa. No auge da belle époque, na virada do século 19 para o 20, seus amigos eram figuras importantes da elite intelectual e política do Brasil. Frequentava festas, jantares e cerimônias públicas, como a inauguração das obras do Porto do Rio.

Os banquetes em sua homenagem reuniam escritores - até o maior de todos, Machado de Assis -, senadores e ministros. Na época, a moda era colecionar cartões-postais com autógrafos das celebridades. Bilac era diferente. Sua mania era guardar cardápios desses encontros gastronômicos.

Não eram cardápios comuns. Alguns chegavam a ser assinados por artistas importantes da época. Os mais de 200 exemplares da coleção de Bilac estão na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio. Metade foi reunida no belo livro Para uma história da Belle Époque, da historiadora Lúcia Garcia. A edição luxuosa, resultado de uma parceria entre a ABL e a Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo (à venda por R$ 130), é um retrato da belle époque no País. Uma época em que o chique era seguir o padrão francês.

Os cardápios são quase todos em francês. "A propósito, à época de Bilac, é bem provável que ele colecionasse menus", esclarece Lúcia. Cardápio é um neologismo que só ganhou força na língua portuguesa anos mais tarde. Lúcia passou dois anos debruçada nos cardápios e nas fotos do poeta que fazem parte do acervo da ABL.

Ela acredita que Bilac colecionava cardápios para não se esquecer dos momentos vividos. "Alguns ele provavelmente guardou pelo apelo gráfico. Outros só pelas boas lembranças." Bilac gostava tanto desses momentos que alguns cardápios trazem até a assinatura dos presentes. Estão lá o então prefeito da capital federal, Pereira Passos, o fotógrafo Marc Ferrez e Angelo Agostini, o cartunista italiano que fez carreira no Brasil.

Pela sofisticação dos cardápios, alguns eram até de tecido, não resta dúvida de que naqueles tempos tudo era caprichado. "Para a gente elegante daquela época, qualquer motivo de celebração era um bom pretexto para fazer um banquete", diz Lúcia. E que banquetes. O serviço era à francesa, com o cardápio em francês, e a divisão de serviços instituída na corte de Napoleão Bonaparte: potage, hors d'oeuvre, entreées, rôtis, entremets e dessert.

Menu típico. No livro, Lúcia narra detalhes de um banquete tupiniquim típico. A refeição começava pela sopa. Na mesa, ficava o hors d'oeuvre: frios, picles, azeitonas e sardinhas. Seguiam-se a entrada, que podia ser poulet au petits pois (frango com ervilhas), e o prato de gala, o rôtis (assado), geralmente acompanhado de foie gras. Depois vinham os sorvetes e os doces gelados. Na sequência, a sobremesa, servida com champanhe. Para fechar a comilança, café e licor, oferecidos junto com charuto.

Com tudo isso, Bilac era um homem magro. E abstêmio. A bebida lhe fazia mal ao fígado. Segundo um dos seus biógrafos, Manuel Bastos Tigre, "ele gostava do bom vinho e do bom uísque, mas gostava mais ainda da saúde e da vida".

Além dos cardápios, o livro traz fotos, como a do almoço que Julio Mesquita, fundador de O Estado de S. Paulo, ofereceu ao amigo na sua fazenda em São Paulo, em 1910. Mesquita e seus convidados posaram sentados em uma escada. À frente, acanhado, está Juvenal, o cozinheiro.

Nessa e em outras fotos, Bilac aparece de perfil. Essa era a sua estratégia para disfarçar o estrabismo. "Ele não se deixava fotografar de frente", explica Lúcia. Por isso, é curioso ver uma foto inédita do poeta se olhando no espelho no seu gabinete de trabalho. Bilac aparece elegante, como sempre.

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