Nordeste mantém tradição na Feira de São Cristóvão

Escolhido Patrimônio Imaterial do Brasil, o Centro Luiz Gonzaga quer restringir ritmos que não sejam representativos da região

Nicola Pamplona / RIO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

No ano em que completa 65 anos de existência, a Feira de São Cristóvão, com sede no Centro Luiz Gonzaga de Tradicionais Nordestinas, na zona norte do Rio, foi declarada patrimônio cultural imaterial do País, mas vive um embate entre a tradição e a invasão de movimentos culturais modernos.

 

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Por volta das 15h de sábado, o grupo de quadrilha Gonzagão deixava a pista na frente de um dos palcos da feira, após uma apresentação em que simulava a disputa entre os municípios de Caruaru e Campina Grande pelo título de melhor festa de São João. Imediatamente, o diretor cultural da Associação dos Feirantes local, Carlos Marabá, tomava o microfone para defender o forró das incursões do funk, que começa a tomar algumas barracas da feira.

"Não sou atrasado, não sou contra a modernidade, mas sou contra a exclusão da cultura nordestina", disse Marabá, anunciando que a entidade vai pressionar para restringir a programação musical aos ritmos nordestinos. "Cada estilo musical tem seu espaço e aqui é espaço do forró", concorda Francisca Dias, dona de um restaurante.

Fundada na década de 40, a feira passou por importantes mudanças em 2003, quando deixou o entorno do belo Pavilhão de São Cristóvão, na zona norte, e passou a ocupar o interior da construção. Os feirantes puderam substituir as velhas barracas cobertas de lona, sem infraestrutura e condições de higiene precárias, por lojas de alvenaria.

 

"Aqui dentro é outra coisa, muito mais seguro", comenta o vendedor de algodão-doce e brinquedos Zé da Bandeira, uma das figuras mais conhecidas do local, natural de Pernambuco e há 41 anos na feira. A mudança colocou a Feira de São Cristóvão definitivamente no roteiro cultural do Rio, com estrutura para receber artistas consagrados como Elba Ramalho e Banda Calypso. A prefeitura está criando um programa oficial de visitação para turistas, com direito a almoço, que começa dia 15.

Atualmente, a Associação dos Feirantes calcula que cerca de 500 mil visitantes passem por mês pelo espaço, que tem quase 700 barracas com oferta de artesanato e alimentos nordestinos - além de produtos encontrados em camelôs, como óculos escuros e camisas de futebol. De dia, os restaurantes são os mais procurados; de noite, há grande movimentação baladeira, com música ao vivo nos dois palcos principais e em diversas barracas.

O movimento noturno é que preocupa os mais antigos. Além das três barracas especializadas em reggae, o funk dos morros cariocas assume espaço cada vez maior nos bares voltados ao público jovem. A transformação em patrimônio cultural imaterial, anunciada na sexta-feira, garante a permanência da feira no mesmo local, mas não impede a entrada de novas culturas.

"A ideia era legalizar a situação para preservar a feira. Agora, vamos tentar preservar a cultura", conta Marabá, que se diz "meio maranhense, meio paraense" - por ter nascido em um barco no Rio Tocantins, na divisa entre os dois Estados - e está há 31 anos no Rio, todos eles trabalhando no local. "Me sinto meio dono disso aqui, está na minha alma", emociona-se.

 

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