Nomes de 5 mil ruas são mistério na Prefeitura

Falta de dados pode inviabilizar colocação de minibiografias nas placas das vias

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2010 | 00h00

 

Não é fácil resumir em um catálogo o emaranhado de ruas, avenidas, praças, viadutos e demais logradouros públicos paulistanos. Mas isso existe. E guarda um pedaço da memória da cidade. Na Seção de Denominação de Logradouros Públicos - que funciona em duas salas contíguas no prédio do Arquivo Histórico Municipal, no bairro da Luz - estão registrados 48.138 nomes. Todos podem fazer muito sentido aos moradores desses endereços, mas 5.288 deles - quase 11% do total - não têm explicação registrada.

"Em geral, são processos de denominação muito antigos, em que não foram apresentadas justificativas oficiais", conta o historiador Maurílio Ribeiro, chefe da seção. "E nossa função é administrativa, não técnica. Não podemos nem temos equipe para fazer pesquisa de campo."

Esse buraco nas informações pode inviabilizar a intenção da Prefeitura de colocar nas placas de endereço, a partir deste ano, minibiografias das pessoas que batizam as ruas. "Só conseguiríamos ter um histórico de tudo com uma força-tarefa."

Além dos 11% que não têm detalhamento, há ruas cujas informações são insuficientes. O registro da General Jardim, na Consolação, por exemplo, só diz que ele foi um notável "defensor da legalidade". A Rodrigues Pais, em Santo Amaro, refere-se ao "primeiro juiz municipal".

O historiador Maurílio Ribeiro trabalha na seção criada na década de 30 para manter a memória das ruas de SP

 

O problema foi enfrentado entre 2001 e 2003 pela nutricionista Silvia Costa Rosa. Ela escolheu as ruas cujos nomes mais chamaram a sua atenção e decidiu escrever um livro. 1001 Ruas de São Paulo foi publicado em 2003. "Mas tive de deixar várias de fora, como a Wisard, na Vila Madalena, porque as informações não eram suficientes."

MEMÓRIA URBANA

 

A seção foi criada na década de 30, quando Mário de Andrade (1893-1945) era diretor do Departamento Municipal de Cultura - hoje Secretaria Municipal de Cultura. A ideia era ter um órgão responsável por prestar consultoria sempre que uma rua fosse batizada - ou tivesse o nome alterado. A seção também se encarregaria de pesquisar a origem das vias.

Hoje, o trabalho de Ribeiro e equipe é dividido em várias frentes. Todos os meses, de 10 a 15 ofícios chegam da Prefeitura pedindo uma consultoria com relação à nomeação de novas ruas ou alterações. A origem desses documentos pode ser tanto do Executivo quanto do Legislativo - Ribeiro conta que há vereadores que são verdadeiros "especialistas" em batizar ruas. "Nosso parecer é apenas consultivo, não deliberativo." Ou seja: mesmo que a seção recomende a não alteração de um nome, os poderes podem resolver mudá-lo.

"Na mudança da Avenida Águas Espraiadas para Jornalista Roberto Marinho, por exemplo, fomos contra." Neste mês, chegou até ele outra proposta. O vereador Carlos Apolinário (DEM) apresentou à Câmara projeto para mudar o nome do Viaduto Pedroso, na Liberdade, para Pedroso Dr. José Aristodemo Pinotti. "Pelo crescimento da metrópole, é garantido que não faltará logradouro importante para ser nomeado", diz o parecer, desfavorável à mudança.

Outro trabalho da seção é ler o Diário Oficial do Município. "Quando há alguma alteração ou nomeação de logradouros, ficamos sabendo por meio da publicação." Desde 2003, esse material pode ser consultado no site www.dicionarioderuas.com.br. Ainda há a função de alimentar as pastas com informações colhidas em jornais e revistas.

Por último, um trabalho de formiguinha. "Descobri no arquivo umas fichinhas, dos anos 70, com informações de nomes que não estavam em nossa base de dados", revela o historiador. "Estou fazendo uma seleção para usar as informações." Um ano depois, Ribeiro está na letra C.

 

PARQUE DA ACLIMAÇÃO

 

Projetos como o do vereador Carlos Apolinário (DEM) - que quer mudar o nome do Viaduto Pedroso para Viaduto Pedroso Doutor José Aristodemo Pinotti - são rotina na Câmara. No mês passado, foi protocolado um, de autoria do vereador Marcelo Aguiar (PSC), que promete causar polêmica. Ele pretende rebatizar o tradicional Parque da Aclimação, no bairro homônimo, para Parque da Aclimação Estevam Hernandes. O homenageado em questão é pai do bispo Estevam Hernandes Filho, fundador da Igreja Renascer em Cristo. No ano passado, o vereador Agnaldo Timóteo tentou mudar o nome do Parque do Ibirapuera para Parque do Ibirapuera Michael Jackson.

RUAS "PERDIDAS"

Wisard, Vila Madalena

O trecho entre as Ruas Girassol e Fidalga recebeu o nome em 1939. Posteriormente, entre 1940 e 1943, outros trechos foram acrescentados. Acredita-se que o nome tenha sido sugerido pelo loteador ou pelos primeiros moradores.

Purpurina, Vila Madalena

O nome foi registrado em 1939. Até então, era uma rua particular. Vinte anos depois, a denominação foi oficializada. Não há explicações nos registros sobre a origem do nome.

General Jardim, centro

Registro afirma apenas que o general João José Jardim foi um defensor da liberdade, entre os anos de 1893 e 1894.

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