Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

No último dia, o Gemini lotou

Público se despede do tradicional cinema da Paulista que fechou as portas após 35 anos

Felipe Branco Cruz, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Após 35 anos de atividades, o Cine Gemini fechou suas portas ontem. Localizado na Avenida Paulista, o lugar não costumava receber nem aos domingos público suficiente para preencher as duas salas gêmeas (daí o seu nome), com 328 lugares. Ontem, no entanto, a bilheteria esteve lotada. E a maioria das pessoas estava lá apenas porque era o último dia.

Foi o caso das estudantes Clarissa Brito, de 20 anos, e Ana Paula Barros, de 19. Elas nunca tinham assistido a nenhuma sessão ali e só foram ontem porque ouviram no rádio que o cinema iria fechar. "É uma pena ver cinemas fechando", afirmou Ana Paula.

Seus frequentadores mais assíduos não poderiam também deixar de dar o último adeus. Um deles, Jacy Regoretti Filho, de 31 anos, tirava fotos dos letreiros e de dentro do cinema para guardar de recordação. "Frequento aqui desde os 16 anos. Acompanhei, com tristeza, o fim de outros espaços da Paulista, como o Astor e o Top Cine", disse.

Jacy nem mora próximo da região: é do Tatuapé, na zona leste. "Prefiro os cinemas de rua. São mais tranquilos. Não vim para assistir a nenhum filme. Estou aqui só para registrar o fim."

A última sessão do Gemini estava marcada para 21h40, com Cabeça a Prêmio. Seria esse filme um mal presságio do que ocorreria com o cinema? Talvez. No entanto, às 19h50, o filme exibido foi o mais recente de Woody Allen, Tudo Pode Dar Certo. Um título que carrega uma amarga ironia, dessas que só o destino é capaz de pregar.

Mofo. Com visual de velho hotel, o espaço tem paredes e piso revestidos por carpetes vermelhos e azuis. A escadaria de madeira range conforme o movimento do público. Em alguns pontos, é possível ver manchas verdes de mofo. Aliás, tudo cheira a mofo.

No local, os funcionários estavam cientes do fechamento, mas não quiseram conversar com a reportagem. Deles não se sentia nenhum sentimento de nostalgia nem perda, já que a maioria da equipe era novata. Um melancólico fim para um dos cinemas mais tradicionais da cidade.

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