No trono em Paris

Não exagero ao dizer que nossa chegada causou sensação no 55 bis do boulevard Montparnasse. Logo nos demos conta, Mariza e eu, de que éramos ali praticamente os únicos estrangeiros, e mais: que não havia outros jovens naquele edifício de 1880, em cujas empoeiradas caves havia cartazes do tempo da Segunda Guerra com instruções para o que fazer em caso de bombardeio aéreo. Não detonamos uma só bomba, mas nenhum habitante fazia mais barulho do que nós, com o papagueio de nossas hordas de visitantes latino-americanos e o matraqueado, a horas mortas, da minha Olivetti Lettera 22, ruidoso instrumento que os antigos usavam para escrever.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

04 Março 2012 | 03h04

Eu mesmo não atentei para o desconforto auditivo que infligia aos demais, até ser advertido por mademoiselle Rakov, a septuagenária vizinha búlgara a quem já dediquei uma crônica - e muito mais dedicaria, se tivesse podido saber o que ela fazia em companhia dos rapazes que, no mínimo em duplas, recebia em seu apartamento, pegado ao meu, de onde, madrugada adentro, vazavam cascatas de risadas. Lascivas? Estive perto de sabê-lo na noite em que, vencidos os 99 degraus de acesso ao sexto andar, vi abrir-se a porta em frente e dela emergir o vulto encarquilhado da Rakov, mais desgrenhada que nunca, com seus formidandos joanetes, um cálice de aguardente búlgara entre os dedos nodosos e um aliciante sorriso de pouquíssimos dentes. "Vous êtes beaux, monsieur!", exclamou ela, no que me soou como convite para chafurdar em seu covil. É tarde para me arrepender.

Com momices de menina sapeca, a Rakov um dia me contou que tomara a iniciativa de espalhar no prédio a informação de que o jeune homme brésilien era um romancista às voltas com as musas. Fiz uma retificação: não se tratava de romance, e sim de nova versão das Sagradas Escrituras na qual o Demônio triunfaria. Longe de se escandalizar, a vizinha sacudiu-se num riso rascante que fez fremir a gigantesca verruga encravada no sopé de seu nariz de couve-flor. Simpatizava com o casal de forasteiros - no que, diria Antonio Houaiss, era reciprocada.

Com a concièrge, porém, suas relações eram de beligerância. Não passava dia em que eu, xeretando no olho mágico, não as visse empenhadas no mesmíssimo bate-boca. A Rakov esganiçava desaforos que a concièrge encaixava sem se abalar, limitando-se a pôr lenha na refrega com um imutável insulto, sussurrado em voz acolchoada: ordure! (lixo).

Ao contrário da Rakov, apreciadora da pinga brasileira, a concièrge jamais foi admitida em nosso tugúrio, que praticamente se resumia à sala, convertida à noite em quarto de dormir. A lareira não funcionava, mas impressionava. O espelho sobre ela não era menos imponente, embora tomado por colônias de fungos - os mesmos, quem sabe, que comprometiam ainda mais a desbotada dignidade do papel de parede. "Aqui outrora retumbaram hinos!", fantasiava eu pela voz de Raimundo Correia. Em vez de hinos, porém, tudo o que se ouvia ali era a fuzarca dos pombos residentes na chaminé.

O aquecimento dependia da solitária modernidade existente em nosso lar, um avantajado radiador no hall de entrada. Encarregado de aquecer toda a moradia, expedia um bafo tórrido que certa noite assou a mala de uma visita enquanto papeávamos. Bem no centro do banheiro havia uma banheira pequena e funda, com um degrau para o freguês sentar. Na entrega das chaves, a senhoria, Marie-Hélène de Oliveira, de quem falei na semana passada, explicou que o bidê tinha a função alternativa de lavatório de verduras. Ao lado da pia, onde deveria estar o vaso sanitário, tremelicava uma veneranda geladeira. Sim, banheiro sem WC mas com geladeira. A privada ficava num cubículo no final do estreito corredor-cozinha. O camarada se aboletava e os joelhos por pouco não relavam na parede. A compensação estava na ampla vidraça, através da qual se contemplava um mar de telhados parisienses. Sim, a impressão de estar pairando sur les toits de Paris, que nem na canção da Piaf. Nos trâmites de atender a prosaicas necessidades da carne, você, quer dizer, eu, podia ver, ao fundo, nada menos que as cúpulas da basílica do Sacré-Coeur de Montmartre. Nunca, antes ou depois, experimentei com tanto realismo a sensação de estar sentado num trono.

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