No tempo de Álvares de Azevedo

Nascido, em 1831, num sobrado na esquina da Rua da Freira com a da Cruz Preta, atuais Ruas Senador Feijó e Quintino Bocaiuva, no centro de São Paulo, o poeta Álvares de Azevedo viveu na cidade apenas 7 de seus breves 20 anos. Após alguns anos no Rio de Janeiro, de onde era a família, retornou a São Paulo, em que seus avós e tios maternos moravam, para fazer o Curso Jurídico.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

Sua relação com a cidade foi ambígua. Numa carta de 1848, mas também em Macário (peça teatral), há por ela, por seu perfil no contraste das luzes de um cair de noite, intenso deslumbramento. Descreve-a como uma pintura. Já no cotidiano as menções, nas cartas publicadas por Vicente de Azevedo, são ásperas e depreciativas. O poeta queixa-se de tudo, das casas das repúblicas em que viveu na Rua Boa Vista e na Ladeira de São Francisco, depois Rua do Riachuelo. Numa véspera de Santo Antônio, irritou-se com os sons dos tambores de uma dança de caiapós ? dança caipira e dramática ? vindos da rua. No entanto, em agosto de 1848, com um tio, lente da Academia, foi a Pirapora para a festa do Bom Jesus e, em outubro de 1849, foi à festa da aldeia de São Miguel, de que outro dos tios era festeiro. Festas muito antigas e caipiras.

Vinha de uma família de aristocratas. Quando menino, no Rio, escrevia do colégio interno aos pais em francês e inglês. Em São Paulo, ia aos saraus e bailes da nobreza da terra ou aos jantares da Marquesa de Santos e de seu marido Rafael Tobias de Aguiar. E dizia: "Na minha terra só há formigas (içás torradas, iguaria local muito apreciada) e caipiras." Incomodava-se com o caipirismo paulista na elite, nos costumes atrasados e na linguagem. Apreciava a beleza das moças, com esta ressalva: "Ir a bailes para dançar com essas bestas minhas patrícias que só abrem a boca para dizer asneiras acho que é tolice." E cita-as, no português de sotaque nheengatu: "Nós não sabe dançá porque..."

Alberto Martins, em belo livro recente, Uma Noite em Cinco Atos (Editora 34), promove um imaginativo encontro entre Álvares de Azevedo, Mário de Andrade e José Paulo Paes, três poetas da Pauliceia. Flanando pelas ruas, José Paulo convida os poetas a concluir sua poesia, a reencontrar a cidade. Há na peça uma sensível alegoria do viver inconcluso, da cidade que perdeu a poesia. A peça é um reencontro com o poeta desencontrado que amava a São Paulo dos cenários e das tradições populares, espacial e estamentalmente distantes; e renegava a rusticidade invasiva nos socialmente próximos.

Álvares de Azevedo morreu em férias no Rio de Janeiro, de um tumor, antes de voltar a São Paulo para cursar o 5.º ano de Direito, em 1852. Num de seus poemas lembrou: "Nos meus quinze anos eu sofria tanto!/ Agora enfim meu padecer descansa;/ Minh"alma emudeceu ? na noite dela/Adormeceu a pálida esperança!"

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