No Sumaré, o berço da TV brasileira

Como cidade cenográfica de novela, onde há a igreja, o boteco, a pracinha, o barbeiro e a banca de jornal, todos se conhecem no quarteirão formado pelas Avenidas Doutor Arnaldo e Professor Alfonso Bovero com a Rua Piracicaba, no Sumaré (zona oeste). É que desde 18 de setembro de 1950 a vizinhança é habitada por esse pessoal da televisão, sabe?

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

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Bem que a Tupi fechou as portas em 1980, mas seu elenco continuou a frequentar as calçadas e mesas da Lanchonete e Pizzaria Real, contracenando então com o pessoal do SBT, que veio a seguir. O local é uma espécie de sucursal dos estúdios ali colados, agora dominados pelos moderninhos da MTV Brasil e pelos boleiros dos canais ESPN, que ocupam a Rua Piracicaba, 175.

Dos quatro estúdios que serviam à Tupi, um é alugado pela MTV, dois pela ESPN e o quarto, onde Vida Alves e Walter Forster gravaram o primeiro beijo da TV brasileira, em 1951, virou sala de manutenção da ESPN. São todos inquilinos de Silvio Santos, que ficou com o Canal 4 de São Paulo após a falência da Tupi. Silvio só não é dono do Edifício Vitor Civita, também erguido pela Tupi, em 1965, com painel de Candido Portinari na lateral, sede da MTV.

Do outro lado da rua está o Parque da Sabesp, que foi cidade cenográfica da novela Beto Rockfeller. "A gente botava uns tapumes, engatava um caminhão no outro, passava cabo aqui e ali, mas dava tudo certo", conta o diretor de externas Francesco Calvano, de 64 anos, que trabalhou na Tupi de 1964 a 1980.

Naquele tempo em que Big Brother não existia, as mesas da Real eram infalíveis para quem buscava um lugar aos holofotes. E nem com seis décadas de frequência célebre o local perdeu fôlego para atrair curiosos. "A Daniella Cicarelli, coitada, logo depois da história com o Ronaldo, nem podia pisar aqui", conta o garçom Izaque Silvino da Costa, de 46 anos, há 26 na Real.

Preocupação. Izaque é um dos garçons que o pessoal da televisão conhece pelo nome. MTV e ESPN têm mesas cativas na Real. "Nossa maior apreensão no momento é garantir a presença dos nossos garçons, das nossas mesas e do pudim de leite condensado", fala o diretor e apresentador da ESPN, José Trajano.

É que a Real foi vendida, há coisa de um mês, para o mesmo grupo da Bella Paulista e da Villa Bahia. Nos planos para a reforma estão serviço de manobristas, expediente por 24 horas e decoração capaz de aproveitar imagens antigas que honrem a tradição televisiva local.

Mas os atuais proprietários, Fernando e Victor Cunha, garantiram ao Estado que pretendem preservar a equipe, em especial os funcionários antigos, e nem pensam em tocar no pudim, atração digna de ser devorada de joelhos, sob as bênçãos de Santa Clara, a padroeira da televisão.

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