No solar da Marquesa de Santos, tesouros da SP Antiga

Casa que pertenceu a Domitila de Castro Canto e Melo está sendo escavada por arqueólogos

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Ana Cláudia de Jesus já aprendeu. "Quando conto sobre meu trabalho, perguntam se eu já achei ouro", afirma. "Digo que não. Mas tem coisas muito mais importantes que ouro, né?"

Uma das quatro pessoas que auxiliam a arqueóloga Paula Nishida nas escavações que ocorrem nos fundos do Solar da Marquesa - casarão histórico que fica no centro de São Paulo, a poucos metros do Pátio do Colégio -, Ana Cláudia encontrou, há duas semanas, uma tampa de vidro com um monograma onde é possível ler um "M" e um "S". Teria sido utilizado para fechar um frasco de perfume da Marquesa de Santos, proprietária da casa no século 19?

As escavações por ali começaram em 2008 e devem ser concluídas em junho - houve duas interrupções, por questões burocráticas. Com as obras de restauração do casarão - datado do século 18 e, desde 1976, de propriedade da Secretaria Municipal de Cultura -, ficou decidido que seria feita uma caixa d"água de 35 mil litros no terreno. Como é uma área de importância histórica, ficou determinada a necessidade de um estudo arqueológico no local.

De lá para cá, Paula e seus ajudantes já encheram 632 saquinhos plásticos com peças importantes coletadas. Há pedaços de porcelana, joias, utensílios domésticos, moedas, ossos de animais e itens não identificados.

O material pode ser resíduo dos antigos moradores da casa, ocupada por uma família entre 1754 e 1766, outra até 1834, pela Marquesa de Santos e seu filho até 1880 e por cinco bispos até 1909, quando pertenceu à Igreja Católica. Depois, o imóvel acabou comprado pela São Paulo Gas Company (atual Comgás) e, desde 1975, é da Prefeitura.

Lixo. Os itens também podem ter chegado ali por não servirem mais a algum paulistano que tenha vivido nos séculos 18 e 19. Como assim? Bem, antes de ser retificado, em uma série de obras realizadas no século 19, o Rio Tamanduateí passava rente ao terreno que vem sendo escavado. Em épocas pré-ecologicamente corretas, era (mais) comum que o lixo fosse jogado no rio. Portanto...

"Os elementos que são descartados por não ter valor em determinada época ajudam a reconstituir as formas de vida dessa população", acrescenta o historiador e arquiteto Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP).

Todo o material recolhido, rotulado e catalogado é enviado ao Sítio Morrinhos, casa bandeirista no Jardim São Bento, zona norte da capital, onde são guardados os tesouros arqueológicos do município. Em um segundo momento, devem ser analisados e estudados por historiadores.

Rotina. Sob duas lonas, uma laranja e outra azul, a área que vem sendo escavada foi esquadrinhada em zonas de 1 metro quadrado. A cada etapa, um dos profissionais raspa o solo por dez centímetros. Em um trabalho diário, que vai das 8h às 17h, toda a terra retirada é repassada, em um balde, a outro funcionário, que a peneira em busca de algo relevante. "Estou gostando muito dessa tarefa", afirma Alexandre Rafael, outro dos auxiliares de Paula.

Esses ajudantes foram recrutados da obra de restauração do Solar da Marquesa. A própria arqueóloga se encarregou de treiná-los. "Vejo que são bastante interessados e encaram isso como uma oportunidade de entender História", diz ela. "Eles já entenderam que isso não é uma caça ao tesouro nem um trabalho de Indiana Jones."

"Eu já tinha visto esse tipo de tarefa pela televisão", conta um deles, Tiago Margarido. "Mas não imaginava que um dia também poderia trabalhar assim." Fã de documentários do canal de TV por assinatura History Channel, Cleber Cunha também está adorando a experiência. "Todo dia a gente encontra uma coisa diferente."

Ana Cláudia ("Sempre fui boa aluna em História") fica orgulhosa do trabalho que vem desempenhando. "Sem dúvida, tudo ajuda a contar a história."

É o mesmo? A 1,5 metro de profundidade, um muro foi descoberto pelas escavações e tem intrigado os pesquisadores. "Há imagens do século 19 que mostram que havia um muro às margens do Rio Tamanduateí", contextualiza Paula. "Mas ainda é preciso estudo para termos certeza de que se trata da mesma construção", ressalta.

E, assim, de descoberta em descoberta, cada balde cheio de terra e cada quadrado de um metro de lado ajudam a recontar a história dos modos de vida daqueles paulistanos que eram tão poucos e viviam no início da hoje metrópole.

"São Paulo é uma cidade que destrói tanto o patrimônio. E estamos conseguindo reconstituir um pouco da memória", conta a arqueóloga. Por enquanto, Paula está satisfeita com o pedaço dessa memória que será refeito graças ao trabalho de sua equipe.

Ali pertinho, empilhados, estão os sacos plásticos com identificações que, aos leigos, podem não significar muita coisa: o anel foi encontrado a 1,80 metro de profundidade; a tampa de vidro, a 1,15 metro; as moedas, a 2,20 metros... Mas certamente enriquecerão, daqui por diante, a maneira como o passado será encarado pelos estudiosos.

Obra de R$ 1,9 milhão

A restauração do Solar da Marquesa começou em abril de 2008 e deve ser concluída até o fim deste ano. O imóvel, tombado, é a sede da rede de casas históricas, batizada de Museu da Cidade de São Paulo.

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