José Luis da Conceição/AE
José Luis da Conceição/AE

No ranking do samba paulistano, zona leste é a campeã

Região tem 32 agremiações, embora só Leandro esteja no Grupo Especial; 'tradicional' zona norte reúne 20

William Glauber, O Estado de S. Paulo

01 Fevereiro 2010 | 11h59

SÃO PAULO - Qualquer desavisado, paulistano ou "estrangeiro", quando cruza a Marginal do Tietê, crê que a zona norte concentra o maior número de escolas de samba de São Paulo. Nesse eixo, enfileiram-se quadras e mais quadras de grandes agremiações. Um levantamento detalhado da territorialidade do samba revela, no entanto, que maior parte das 80 escolas em atividade na capital está em comunidades da zona leste. São 32 agremiações por lá, embora somente a Leandro de Itaquera represente a região no Grupo Especial.

 

A tese de doutorado As Territorialidades do Samba na Cidade de São Paulo, do geógrafo Alessandro Dozena, apresentada à Universidade de São Paulo (USP), revela que a zona norte, na verdade, reúne 20 agremiações. Não é pouco. "A região tem muitas quadras do Grupo Especial e, no imaginário coletivo, representa o samba, mas parte da população negra migrou do centro para a zona leste a partir da primeira metade do século 20 e lá estão escolas, blocos e rodas de samba", explica Dozena.

 

Atrás desses berços do samba vem zona sul, com 14 escolas; centro e zona oeste têm sete escolas cada uma. Esses imigrantes da zona leste fundaram comunidades, baseadas em um samba desglamourizado. Independentemente do número de quadras, uma das principais constatações do estudo é a de que o samba consolida o sentimento de pertencimento a um espaço e afirma uma identidade cultural de um grupo, diz Dozena. "A apropriação do território pelo samba propõe uma outra cidade, que não é a oficial, propõe outros discursos e práticas sociais."

 

A zona leste formou, então, uma cidade paralela, onde o samba está distante do Grupo Especial, longe da TV, mas presente no cotidiano das pessoas. "Independentemente da renda e da cor de pele, há envolvimento da comunidade na escola. Na quadra, a hierarquia social se suspende. Ali convivem advogados, faxineiras, policiais. Ali são respeitados o presidente, o diretor de bateria e toda a velha-guarda", relata Dozena.

 

Segundo o pesquisador, surgem novos espaços de sociabilidade, onde se constroem novos paradigmas econômicos, políticos e culturais. Seu Renato Gomes, de 63 anos, é um exemplo desse envolvimento da comunidade com uma escola. Membro da Velha-Guarda da Acadêmicos do Tatuapé - escola do Grupo 1 que luta por uma vaga no Grupo de Acesso, ele jura amor ao samba, à agremiação e ao território ao qual pertence. "A escola foi fundada num beco, tem história, e tudo mudou. Nós que estamos no Grupo 1, 2 ou 3 vamos para avenida por amor à bandeira. As musas do BBB, atrizes, não têm samba no pé. Samba no pé se encontra nas comunidades, no Tatuapé, Vila Prudente, Vila Esperança , Ipiranga."

 

Renato frequenta a mesma escola há 40 anos e mantém laços de amizades com membros de outras agremiações "coirmãs". Depois do ensaio da Acadêmicos, vestiu o traje social e, acompanhado de sua mulher, partiu para o baile da saudade da Camisa Verde e Branco. "Como a gente é da Associação da Velha-Guarda de São Paulo, convidam para eventos. Somos todos unidos. A briga é só na avenida."

 

Nos holofotes midiáticos, a Leandro de Itaquera mantém ainda um forte vínculo de identidade local. Frequentador há oito anos da quadra, o assistente de vendas Robson Pereira Lima, de 26 anos, descreve com empolgação a sua relação com a escola. "Sempre fui Leandro, por ser da minha comunidade. Aprendi a sambar aqui, na minha comunidade", diz.

 

Esse entusiasmo resume, segundo Marilene Bernardes Martins, mulher de seu Leandro (fundador da escola), a autoestima que o samba exerce sobre os frequentadores. "Hoje em dia as pessoas têm prazer de falar que são de Itaquera. Esse sentimento supera preconceitos", afirma Marilene. Mas, além da diversão, a bamba do samba sabe bem que a escola estabelece, como averiguou Dozena na sua tese, um emaranhado de relações culturais na comunidade. "O samba não é só cantado. Aqui, é contada a história do nosso povo."

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