No rádio, o dia-a-dia de detentas do interior de São Paulo

Com o programa, cadeia de Votorantim não tem rebeliões e fugas de presas

José Maria Tomazela, do Estadão

11 de julho de 2007 | 10h39

Diante do espelho, a apresentadora Viviane Rodrigues, de 32 anos, retoca o batom, repassa o lápis em torno dos olhos azuis, ajeita os cabelos compridos e, em seguida, assume o microfone à frente do entrevistado, d. Eduardo Bentes Rodrigues, arcebispo de Sorocaba, no interior paulista. O estúdio, com mesa de gravação e computador, fica numa cela da Cadeia Feminina de Votorantim, a 100 quilômetros de São Paulo, na região de Sorocaba. A entrevista com o bispo, realizada há três semanas, marcou a estréia da Rádio Povo Marcado, a primeira rádio comunitária a funcionar, pelo menos legalmente, no interior de uma prisão. O promotor de Votorantim, Wellington Veloso, foi o entrevistado no dia 3. O projeto foi elaborado pela Secretaria de Cultura da cidade, com o apoio da Polícia Civil. Segundo a delegada Sueli Morales da Silva, diretora da cadeia, a rádio motiva as presas e ajuda a reduzir as agruras de uma prisão superlotada. O prédio tem capacidade para 48 detentas, mas abriga atualmente mais que o triplo disso: 172 mulheres. "É uma forma também de contato com a sociedade, o que deve ajudar na ressocialização quando saírem", diz Sueli.É o caso da apresentadora Viviane. Condenada por tráfico de drogas, está cumprindo pena e espera vaga no sistema prisional para ser transferida. "Enquanto não acontece, tento ser útil e ajudar as outras presas", afirma. Viviane, que tem uma filha de 7 anos, quase terminou o segundo grau. Era auxiliar de faturamento e tinha uma vida comum, mas foi levada ao tráfico pelo marido. Presa há um ano, relutou em se expor, com medo "do que vão pensar lá fora". Por fim, aceitou o convite. "Vi que a rádio era uma forma de levar para as pessoas a situação real aqui dentro." A presa Valdirene Gomes, de 25 anos, compôs a trilha sonora do programa de entrevistas. A música fala do drama das presas e do sonho de liberdade. Também foi presa por tráfico, assim como Raquel Aparecida da Costa, de 20 anos, responsável pelas reportagens e entrevistas com outras detentas. O programa, de uma hora, é retransmitido pela FM Tropical, emissora local, e por duas rádios comunitárias da região. Também está disponível em um blog na internet.LágrimasAs presas, que assistem às atrações da rádio no pátio da cadeia, são convidadas a participar. Pelo menos três fizeram perguntas ao arcebispo de Sorocaba. Uma delas, Angélica, chegou a chorar ao perguntar o que poderia ser feito para evitar, lá fora, a discriminação contra as presas. "Seria bom se a sociedade visitasse os presídios", disse d. Eduardo. A apresentadora reclamou que padres e freiras não visitam os presos. O bispo prometeu que a diocese dará mais atenção às detentas. No fim do programa, todos rezaram. O secretário de Cultura de Votorantim, Werinton Kermes, tem planos maiores. Está gravando um programa com as detentas para ser veiculado num canal educativo regional de TV a cabo. Ele acredita que a comunicação pode ser uma "ponte" entre as presas e a sociedade. Sem rebeliõesAs seis detentas que tocam o dia-a-dia da rádio são orientadas pela jornalista Luciana Lopez e pela doutora em comunicação Miriam Cris Carlos. Outras detentas estão sendo treinadas. Algumas lêem livros sobre comunicação. Por causa do excesso de lotação, a cadeia feminina tem um grande histórico de rebeliões, tentativas de fuga e protestos. Este ano, não houve fugas nem rebelião desde que, além da rádio, as presas ganharam biblioteca e cursos de bordado e fotografia.

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