No Nordeste, rodízio vira rotina e banho de chuveiro é exceção

Caixas d'água grandes, sistemas de captação da chuva, tanques reservas, poços artesianos e tonéis são arsenal anticrise

TIAGO DÉCIMO / SALVADOR, ANGELA LACERDA / RECIFE, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h04

O fantasma do rodízio de água, que hoje assombra os habitantes da Grande São Paulo, é realidade de boa parte das maiores cidades nordestinas. Por causa da frequência com que vivem com torneiras secas, muitos moradores desenvolveram estratégias para evitar que a rotina seja alterada nos dias sem fornecimento. Caixas d'água grandes, sistemas de captação da chuva, tanques de reserva, poços artesianos e tonéis estão no arsenal.

Em Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba, com 400 mil habitantes, os moradores estão em rodízio desde dezembro - o abastecimento é interrompido no sábado e retomado na segunda-feira.

A casa da farmacêutica Tricya Farias, de 39 anos, onde mora com os pais e o filho de 2 anos, na parte alta da cidade, é equipada com uma caixa d'água de 8 mil litros e um tanque de 6 mil litros. "Além de armazenar, reutilizamos a água de diversas formas", diz. "A água da máquina de lavar roupa, por exemplo, é usada para lavar as áreas externas da casa."

Segundo a Companhia de Água e Esgoto da Paraíba (Cagepa), o Açude Epitácio Pessoa, conhecido como Boqueirão, de onde é feito o abastecimento para Campina Grande e outras 18 cidades da região, opera com cerca de 22% de capacidade. Foi estabelecido pelo governo que seria adotado rodízio em 25%.

Entre as capitais, uma das mais habituadas a enfrentar rodízio é São Luís. O abastecimento é de um dia com água e outro sem. Alguns pontos da cidade, porém, passam dias seguidos sem receber água.

A alternativa emergencial encontrada pelo Estado para amenizar o problema foi a abertura de poços. Desde o início do ano, a Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão (Caema) contratou a perfuração de 11 poços. "São obras provisórias, mas a melhor solução para regularizar rapidamente o abastecimento", diz o diretor-presidente da Caema, Davi Telles.

Rotina. No Recife, as irmãs Laurecí Maria Neves, de 58 anos, e Lindaci Maria Neves, de 62, não escapam da falta d'água. Elas moram no Alto do Capitão, morro da zona norte, onde há rodízio de um dia com água e outro sem, mas o corte pode ser maior. "A água vem após quatro dias, mas sem hora certa e muitas vezes vai embora depois de poucas horas", diz Laurecí.

Baldes, bacias e tonéis integram a mobília de suas casas há cerca de 15 anos. Banho de chuveiro, só eventualmente. Laurecí diz que há dez anos não toma um. Lindaci tomou um no ano passado, quando visitou parentes em Abreu e Lima. "Em casa, não dá", explica. "A água, quando chega, não tem força para subir." Seja do banho de bacia, com cuia, da lavagem da roupa ou da louça, a água é reutilizada e vai parar no vaso sanitário ou na limpeza do chão.

Aos paulistanos que enfrentam o risco da falta d'água, elas ensinam que "sempre é possível economizar mais" e que é preciso cultivar a solidariedade. "Quando a gente não tem para onde correr, algum amigo cede um pouco", diz Laurecí.

O diretor regional metropolitano da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), Fernando Matos, afirma que o Recife não enfrenta crise igual à de São Paulo. "Os rodízios não ocorrem por falta de água", diz. Segundo ele, há produção, mas o problema está na rede de distribuição, que está em processo de substituição.

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