No meio da rua em Itaquera, uma pista de corrida

Com a ajuda de moradores, ONG pintou 200 metros de via e a transformou em local de treinamento para cerca de 50 alunos

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

Correria. Alunos da Associação Esportiva e Cultural Kauê Itaquerense treinam na pista de rua; emtidade já formou até um adolescente campeão brasileiro dos 1.500 metros        

 

Frustrado com a falta de opções esportivas em Itaquera, zona leste de São Paulo, o consultor Francisco Carlos da Silva, de 38 anos, decidiu agir. Num domingo de abril, se reuniu com quatro amigos, juntou pincéis, tábuas e um rolo de barbante e saiu. Duzentos litros de tinta e 16 horas de trabalho depois, terminou o que ele mesmo considera sua obra-prima: uma pista de corrida de 200 metros pintada na Rua Nicolino Mastrocola, onde ensina e treina jovens e crianças do bairro três vezes por semana.

Francisco - ou Fran, apelido pelo qual é conhecido - é ex-atleta profissional e presidente da Associação Esportiva e Cultural Kauê Itaquerense, uma ONG voltada para a formação de atletas e que faz trabalhos sociais. A associação foi fundada há 12 anos e cerca de 50 jovens treinam regularmente na rua recém-pintada.

Segundo ele, a ideia surgiu em 2008, quando levou uma das atletas para disputar em uma edição da São Silvestrinha, a versão mirim da Corrida de São Silvestre. "Ela estava tão acostumada a treinar na rua que ficou assustada quando viu uma pista de verdade. Na hora, ela virou e disse: "É aqui que eu vou correr?". Foi aí que me veio essa ideia de pintar uma pista na rua e dar de presente para eles", conta. E começou a amadurecer os planos.

Nesse meio tempo, Fran conseguiu doações de latas de tinta, conversou com a Subprefeitura de Itaquera e mobilizou amigos e moradores para ajudar na pintura e nos preparativos da festa de inauguração. "As pessoas diziam que eu era louco, mas isso acabava me motivando mais." Finalmente, em 25 de abril, mais de 400 crianças e jovens do bairro participaram da corrida de estreia. Como a rua é tranquila e os treinamentos são feitos no início da manhã e no fim da tarde, não há problemas com carros.

Promessas. Mesmo antes de a Rua Nicolino Mastrocola ganhar cores novas sobre o asfalto, a Associação Kauê - cujo nome é homenagem ao filho homônimo de Fran, que também participa dos treinamentos - já havia revelado talentos promissores no atletismo. Entre eles, quem mais se destaca é Rafael Soares, de 17 anos, campeão brasileiro dos 1.500 metros na sua categoria e hoje atleta do Clube Pinheiros, um dos mais tradicionais de São Paulo.

Agora acostumado a correr em pistas oficiais de campeonatos ao redor do mundo - ele já tem o 4.º melhor tempo mundial da categoria e, para seus treinadores, é um dos atletas brasileiros mais promissores de sua geração -, Rafael percorria várias vezes por dia a Nicolino Mastrocola há apenas dois anos. "Treinei ali até o Fran conseguir me colocar no Pinheiros. Agora, quero seguir carreira no atletismo e disputar uma Olimpíada. Meu objetivo é esse", afirma.

Outra jovem promessa que treinou na ONG é Helenita Reis, de 15 anos. Ela se deparou com uma escolha difícil há poucos meses: continuar no seu emprego de entrega de próteses dentárias, com o qual ajudava na renda da família, ou se dedicar integralmente aos treinos. O impasse foi resolvido após uma empresa de recursos humanos oferecer um patrocínio à jovem atleta. "Meu sonho é ser maratonista", diz. Apesar da idade e do pouco tempo de treino, ela disputa provas de 5 km com atletas adultos e vem obtendo boas colocações.

Para Fran, a nova pista vai ajudá-la não só a se familiarizar com os traçados que encontra nas competições profissionais, mas também deve melhorar sua noção de raias, tempo e espaço. "Correr não é só botar um tênis, tem toda uma técnica", afirma.

Tatuagem. Além dos treinamentos com futuras promessas, Fran também mantém um trabalho com um grupo de terceira idade, para proporcionar mais qualidade de vida aos mais velhos. O pedreiro Francisco Pereira dos Santos, de 56 anos, um dos 35 frequentadores das aulas, conta que bebia e fumava bastante até participar dos treinamentos três vezes por semana. "Achei melhor correr em vez de ficar no bar arrumando confusão."

O começo, no entanto, não foi nada fácil. No primeiro dia, se cansou com apenas cinco minutos de corrida, mas, pouco a pouco, Chiquinho, como é conhecido no bairro, foi melhorando sua forma física. Atualmente, disputa mensalmente provas de 10 km e 20 km e é um grande entusiasta do atletismo. Tanto que seu próximo plano é fazer sua primeira tatuagem: um homem correndo numa pista como a da Nicolino Mastrocola. "Minha vida melhorou muito e, quando eu morrer, quero levar tudo isso comigo."

O NOME DA RUA

NICOLA MASTROCOLA

ITAQUERA

ZONA LESTE

Nicola Mastrocola foi diretor de clubes esportivos em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Também ficou conhecido por ter conseguido melhorias para o bairro e por internar pessoas pobres em hospitais da cidade e do interior do Estado. Nasceu em 1907 e morreu em 1971.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.