No meio da Cracolândia, histórias de quem resistiu ao ‘inferno’ e sobreviveu

Uma semana após a megaoperação policial que acabou com o quadrilátero do crack, moradores relembram a ação, ajudam uns aos outros a encontrar um local para morar e redescobrem as ruas que passaram anos ocupadas por viciados e traficantes

Alexandre Hisayasu, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Eram 6 horas do domingo passado, dia 21, quando Sara dos Santos Silva, de 50 anos, e os filhos Rita Vitória, de 12, e João Vitor, de 10, foram surpreendidos com gritos e chutes na porta. Era a polícia. O menino escondeu o rosto debaixo do cobertor, depois que viu investigadores armados. A família saiu do local, uma pensão na Alameda Dino Bueno, com todos os demais moradores. Na volta, encontrou tudo destruído. “Perdi tudo”, disse ela. 

A Rua Helvétia e a Alameda Dino Bueno ganharam um novo cenário há umA semana. Barracas que vendiam crack 24 horas por dia para cerca de mil usuários que fechavam todos os acessos foram substituídas por crianças, jovens e adultos que usam o mesmo espaço para conviver e ter momentos de lazer. Dentro dos quartos destruídos das pensões, porém, famílias dividem espaços minúsculos. Outras buscaram moradias em porões com condições insalubres. O medo de todos é não ter e não saber para onde ir.

O Estado visitou durante toda a semana o antigo quadrilátero do crack e conheceu histórias de famílias que perderam seus poucos pertences durante a operação da Polícia Civil que resultou na prisão de 52 traficantes. Mesmo com pouco, elas conseguem ajudar umas às outras. A reportagem também conversou com usuários da droga na nova Cracolândia que se instalou na Praça Princesa Isabel.

Sara, que morava na Dino Bueno, contou que depois da operação policial ninguém ficou vigiando os quartos dos moradores. Muitos foram saqueados, incluindo o dela. Agora, a mãe e os filhos moram em outra pensão, na Rua Helvétia. “Estou aqui de favor, porque um amigo nos deixou ficar sem pagar nada. Não sei até quando.” Ela perdeu a primeira etapa do cadastramento feito pela Prefeitura para moradias populares. “Ninguém sabe quando vão voltar.”

O filho João Vitor sorri o tempo todo e aproveita para jogar bola e andar de skate nos fins de tarde na Rua Helvétia. A nova rotina veio depois da operação da polícia. “Antes, ficava um monte de gente na frente e era muito perigoso”, disse. O cabelo comprido na altura da cintura não atrapalha. O menino aprendeu a andar de skate aos 2 anos, quando a família chegou à Cracolândia. “Eu desviava dos ‘noias’”, relatou. Quando parou um pouco para descansar, ele contou um segredo: “Sabe tio, eu quero vender o meu cabelo para comprar uma casa para a minha mãe. Eu sei que ela sofre demais.”

Há dez anos, uma fotografia do menino ganhou os jornais. A família morava no Edifício São Vitor, conhecido como Treme-Treme, quando o local foi alvo de uma operação policial para cumprir ordem judicial de desocupação. Sara estava com João Vitor no colo, no primeiro andar do prédio. “Ele começou a passar mal com o gás jogado pela polícia. Foi então que me aproximei da janela e vi que as pessoas lá embaixo faziam uma espécie de cordão para segurá-lo. Um rapaz veio por outra janela, pegou o João Vitor e se esticou o máximo para que ele caísse nos braços daquelas pessoas”, lembrou Sara.

Do Treme-Treme, a família seguiu para uma pensão na Cracolândia. Sara montou um bar, que acabou destruído depois da operação da Polícia Civil. Segundo as investigações, traficantes foram filmados armados no local. A polícia afirma que ela não tem envolvimento com os bandidos. 

Recomeço. O chão do bar destruído de Sara serviu de quarto para o aposentado Abidias Lima dos Santos, de 83 anos. Ele morava nos fundos de uma pensão na Alameda Dino Bueno, que também ficou destruída após a ação policial. 

A reportagem encontrou o aposentado na quinta-feira, por volta das 21 horas. Ele estava deitado em um colchão sujo no chão, sem lençol, com um gato da proprietária. Havia também forte odor de urina.

“Eu sou sozinho, não tenho ninguém. A dona Sara me deixou ficar aqui. Ela também não tem para onde ir, mas, como conseguiu um quarto, pude ficar aqui”, disse. Abidias tem hérnia de disco e se movimenta com dificuldade. Quando conversou com a reportagem, tossia bastante. As refeições eram providenciadas por Sara.

O aposentado mora na Cracolândia há sete anos. “Era muito ruim isso aqui, porque os ‘noias’ ficavam fumando o dia inteiro e o lugar cheirava a crack. A gente também não conseguia andar por causa do fluxo e também da sujeira”, contou.

Após ser avisada pelo Estado sobre a situação do aposentado, a Prefeitura encaminhou agentes de saúde e assistentes sociais para atender Abidias. Após uma breve conversa, ele aceitou ir para um albergue e começar um tratamento médico. Mas Abidias, assim como Sara, não se cadastrou no programa de habitação da Prefeitura.

Cadastro. O secretário municipal de Habitação, Fernando Chucre, disse que o cadastro de moradores será feito em várias etapas, justamente para contemplar aqueles que não estiverem nos locais no momento da visita dos agentes. “Serão quatro etapas. A primeira foi logo após a operação. Outra será feita neste fim de semana, uma terceira vai acontecer à noite. Na última, faremos um pente fino para alcançar todas as pessoas que estejam nos 676 imóveis da região.”

Sobre os quartos de pensões que acabaram destruídos, o delegado Ruy Ferraz Fontes, do Departamento de Narcóticos, justificou a ação em entrevista coletiva dizendo que os locais serviam de abrigo para traficantes e armazenamento de drogas e armas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.