No maior incêndio do País, 503 morreram

Há 51 anos, tragédia em circo em Niterói deixou ao menos mil feridos, a maioria crianças

SERGIO TORRES / RIO, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2013 | 02h01

A maior tragédia brasileira decorrente de um incêndio aconteceu na tarde de 17 de dezembro de 1961, em Niterói. Oficialmente, morreram 503 pessoas. Pelo menos mil ficaram feridas, grande parte delas com queimaduras gravíssimas. Cerca de 70% dos mortos eram crianças.

Passados 51 anos, o desastre do Gran Circo Norte-Americano ainda é discutido na cidade. Há questionamentos sobre o número real de vítimas - que seria ainda maior - e sobre a autoria, creditada pela polícia a um empregado que, demitido do circo, teria se aliado a dois mendigos para incendiar a lona.

Havia, de acordo com a crônica da época, pelo menos 2 mil pessoas sob a lona do circo quando o fogo começou. Inflamável, a cobertura caiu sobre a multidão em pânico, o que impediu que as pessoas escapassem pela única e estreita saída.

As labaredas arderam por 10 minutos. Apagadas, revelaram um cenário de horror: corpos calcinados espalhados às centenas. Ao redor, agonizantes imploravam atenção e socorro.

Para agravar ainda mais o quadro, a rede hospitalar da cidade estava semiparalisada por uma greve que já durava 20 dias. O Hospital Antônio Pedro foi reaberto emergencialmente.

Um dos médicos envolvidos no atendimento aos queimados, o clínico Marcio Torres relembra um episódio que o marcou. Ele estava no 5.º andar do Antônio Pedro, sozinho com pacientes moribundos, quando reparou na entrada de um homem de terno, que, chocado com o que via, desatou a chorar.

Com 26 anos na época, Torres chegou a pensar que o parente de um ferido conseguira chegar à enfermaria.

Ao aproximar-se, o médico descobriu quem era o visitante: o então presidente da República, João Goulart."Eu atendia na enfermaria quando vi chegar um senhor cambaleante. Ele se abaixou na mesa e começou a chorar que nem criança."

Cicatrizes. Lenir Ferreira, de 77 anos, perdeu o marido e os filhos de 2 e 3 anos no incêndio. Estava grávida. Também perdeu a criança que nasceria. Passou nove meses hospitalizada. Traz cicatrizes espalhadas pelo corpo - por ter perdido parte do couro cabeludo, ainda hoje usa peruca.

"Já vivemos isso. Essa tragédia no Rio Grande do Sul me fez lembrar tudo o que passamos em Niterói. Lembro bem que, quando o fogo do circo apagou, apareceu um soldado que gritou: 'Quem está vivo aí, levanta a mão'. Levantei o braço com muita dificuldade. Não consigo esquecer", disse.

Outro sobrevivente é o coronel Mário Sérgio Duarte, ex-comandante da PM do Rio. Ele tinha 4 anos. Ao ver o fogo, avisou o pai e a irmã, 1 ano mais velha. Os três fugiram por um buraco escavado no chão. "Quando a lona caiu sobre todo mundo, meu pai não deixou que eu e a minha irmã olhássemos para trás."

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