No interior, moto já é usada até para tocar a boiada

Falta de fiscalização de trânsito nos pequenos municípios do País e alta velocidade contribuem para aumentar as taxas de mortes

O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2011 | 03h04

Com apenas 4.754 habitantes, São Gonçalo do Piauí (PI) tem taxa de uma moto para cada dez habitantes. E é um dos locais que concentram as maiores taxas de morte por motocicleta do País.

A cidade não tem revenda, apenas três oficinas que fazem reparos em motocicletas que, muitas vezes, estão sem nenhuma documentação em dia. Tampouco tem departamento de fiscalização de trânsito.

"A maior parte das cidades do País não tem o trânsito municipalizado, não tem órgão fiscalizador. O Código de Trânsito não existe. E os prefeitos não estão preocupados", diz o consultor de trânsito Horácio Figueira.

Consumo. A facilidade para comprar motos encheu os pequenos municípios desses veículos, que substituíram os cavalos e as bicicletas. Os vaqueiros deixaram de andar a cavalo e até tangem a boiada montados em motocicletas de 125 cilindradas. Capacete é artigo de luxo, que pouco se vê.

Segundo o policial militar Walter Moreira, que trabalha na delegacia de São Gonçalo, há também moradores que saem da cidade para trabalhar no garimpo ou corte de cana e, quando voltam, logo compram moto.

"Outro agravante é que as pequenas cidades não têm congestionamento. E é comum que as pessoas dirijam em rodovias, em alta velocidade. O jovem quer vento na cara", afirma o diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Alves Júnior.

Morador de São Gonçalo, o radialista Renato Bezerra, de 37 anos, dirige moto há 13 e se vangloria de nunca ter sofrido um acidente. "Quem não tem dinheiro para ter e manter um carro recorre à moto como meio de transporte. Além disso, dá uma sensação de liberdade." Entretanto, ele se dizia indignado com a morte de um amigo, o conselheiro tutelar João Neto, de 32 anos, que teve a cabeça esmagada por um caminhão que vinha na pista oposta, depois que caiu no asfalto ao ser tocado na traseira na BR-343, em maio passado.

Capitais. Os dados alarmantes das pequenas cidades do País não querem dizer que a situação é melhor nas capitais. Em Campo Grande (MS), a terceira capital mais violenta em acidentes de moto, das 82 mortes em decorrência do trânsito registradas entre maio e novembro, 52 foram de motociclistas.

O presidente da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), Rudel Trindade, diz que a maior parte dos cem mil motociclistas da cidade usa o veículo para trabalhar. "Temos nesse universo piscineiros, motoboys, mototaxistas e outros trabalhadores que usam a moto para passear, levar o filho na escola e a mulher ao médico. São motos de baixa cilindrada, na maioria dos casos compradas em suaves prestações, fato que motiva o aumento dos problemas. A frota sobe 15%, enquanto a população cresce 1,4% por ano." / BRUNO RIBEIRO, JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, LUCIANO COELHO e JOÃO NAVES DE OLIVEIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.