No fundo dos oceanos tudo é lento

Quem observa os peixes coloridos que nadam ao redor de corais pode imaginar que o fundo do oceano seja um lugar semelhante. Nada mais errado. A luz não chega ao fundo dos oceanos, lá é escuro. A temperatura é baixa e a pressão, alta. Com a falta de luz não ocorre fotossíntese e, sem a produção primária de alimentos, os animais não têm o que comer. Quase não existe oxigênio e a estratégia de degradação dos alimentos usada pelos animais é inviável. É por isso que, três anos depois da queda do voo da Air France, quando os destroços foram localizados, muitos corpos ainda puderam ser resgatados.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2014 | 02h04

Mas ambientes hostis também são habitados por seres vivos. E os cientistas tentam entender como essas comunidades sobrevivem. Parte significativa dos alimentos "chove" no fundo dos oceanos. São cadáveres de animais e plantas que, quando não são devorados perto da superfície, chegam ao fundo. Troncos e restos de plantas também são carregados para os mares e acabam afundando. Tufões carregam milhões de toneladas de galhos e troncos de árvores. Essa biomassa é parte do alimento da comunidade que vive no fundo dos mares.

Os cientistas estão tentando entender como os organismos do fundo dos oceanos degradam esse material. O processo parece ser muito lento. Quando o Titanic foi encontrado, 70 anos depois de ter naufragado, as cadeiras feitas de teca (uma madeira muito resistente) ainda estavam intactas.

Em 2006, um grupo de cientistas usou um submersível não tripulado para depositar 36 troncos de acácia em uma área de 500 m2 a 50 km da costa da Califórnia, perto de Monterrey. Esse "Jardim de Troncos" foi construído a 3.203 metros de profundidade, no Oceano Pacífico. Desde então, a cada ano, um navio vai ao local e um veículo não tripulado filma o que está acontecendo com os troncos. Como a posição exata de cada um dos troncos é conhecida, as superfícies e os arredores podem ser localizados e filmados.

O que as câmaras observaram ao longo dos anos é que em volta dos troncos surgia um halo no solo do oceano. Mas o que estava acontecendo com os troncos era um mistério.

Finalmente, em agosto de 2011, os robôs submarinos voltaram ao local e colocaram os troncos dentro de sacos plásticos com furos muito pequenos. Dessa maneira, os seres vivos que habitavam os troncos não podiam escapar. E o robô levou 18 dos 36 troncos para o navio oceanográfico. Cada ser vivo que habitava o tronco foi coletado, identificado e contado.

Os resultados desse levantamento mostram que diferentes troncos estavam em estados diferentes de decomposição, o que permitiu entender como o alimento contido no tronco estava sendo utilizado pelos seres vivos.

Aparentemente, a primeira coisa que acontece é a fixação de pequenos bivalvos (moluscos com duas conchas) no tronco. Eles conseguem perfurar o tronco ingerindo micropedaços de madeira. Os buracos feitos pelos bivalvos se transformam em morada para pequenos crustáceos (que foram observados pela primeira vez neste estudo). Os crustáceos se alimentam das fezes dos bivalvos e dos fragmentos de madeira espalhados em volta do tronco. São os fragmentos de madeira que formam o halo observado pelas câmeras. A esperança dos cientistas é isolar e manter vivos os microrganismos que degradam a celulose nesses halos de fragmentos de madeira e fezes.

Em cinco anos, foi o que aconteceu com os troncos. A vida no fundo dos oceanos é lenta. Agora, é esperar mais cinco anos. Em 2016, serão levados à superfície mais alguns troncos e, quando a análise for terminada, em 2018, saberemos como a degradação continua. E, se eu estiver por aqui, conto o segundo capítulo desse longo experimento. Haja paciência.

*É biólogo. Mais informações: Beta-Diversity On Deep Sea Wood Falls Reflects Gradientes In Energy Avaliability. Biol. Lett. Vol. 10 Pag. 129 2014

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