WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

No Dia de Finados, famílias fazem homenagens adiadas pela pandemia

Nos cemitérios da capital paulista, visitantes prestaram homenagens também a pessoas que foram vítimas da covid-19; locais seguiram protocolos de higiene, com medição de temperatura, álcool em gel e celebrações com distanciamento

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 11h27

Famílias que perderam parentes por covid-19 durante a pandemia encontram neste Dia de Finados, 2, a primeira oportunidade para se despedir e prestar homenagens às vítimas. Foi autorizada pelo governo do Estado, com aval da Prefeitura, a visitação aos cemitérios após quase sete meses de restrições. Durante a pandemia, os enterros aconteceram com o caixão lacrado e os velórios tiveram sua duração limitada a uma hora para, no máximo, dez pessoas.

Na quadra 17 da ala nova do cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, a vendedora Cristiane Oliveira, de 28 anos, e mais três familiares deram as mãos ao redor da sepultura de Roberto Ramon. Ficaram assim calados e de cabeça baixa por alguns minutos. Rezaram. Logo depois, chegaram outros familiares; alguns se despediram. Ficaram lá por mais de duas horas.

Essa foi uma parte do ritual que a família preparou para se despedir do aposentado que foi vítima da covid no mês de abril. Quando ele morreu, o velório durou menos de dez minutos. As roupas levadas para a vítima não foram utilizadas. Caixão lacrado. A última vez que Cristiane viu o pai foi no momento da internação. Ontem, a despedida tentou resgatar o que não foi feito lá atrás. “Não tivemos chance de dar adeus. Hoje, a gente se programou para fazer algumas coisas que não tivemos chance de fazer por conta da pandemia. Mas não é a mesma coisa”, lamenta.

Com duas sacolas de supermercado cheias de flores, a professora aposentada Maria Aparecida Pinheiro, de 73 anos, planejou uma visita ao cemitério do Araçá, zona oeste de São Paulo, logo pela manhã. Ela queria prestar homenagens à colega de profissão Maria Eugênia Azeredo dos Santos, que faleceu de covid-19 meses atrás. Ela não havia conseguido ir ao enterro. "Eu fui antes ao cemitério, mas estava muito vazio. Não havia nem flores. Muita gente está voltando hoje", diz a moradora da zona norte. 

O cemitério do Araçá foi apenas um dos endereços visitados pela professora. No começo da manhã, ela já havia visitado o Cemitério do Horto, na zona norte. Ali, ela foi homenagear a mãe, Andrelina Pinheiro, que faleceu de insuficiência respiratória antes do início da pandemia.

"Representantes de vários cemitérios relatam a visita de pessoas que tiveram perdas recentes por covid-19. Depois da privação dos rituais, o Dia de Finados foi um respiro, a chance de prestar uma homenagem e marcar o cumprimento de um ciclo", explica Gisela Adissi,  presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) e da Associação Cemitérios e Crematórios do Brasil (Acembra). Juntas, as duas entidades representam 120 cemitérios no Brasil. 

A pandemia também adiou os cuidados com os falecidos de outros tempos, antes da pandemia. Depois de sete meses longe do cemitério da Vila Formosa por causa das restrições de visitas impostas pela pandemia, a desempregada Stefany Silva, de 23 anos, estava preocupada com o local da sepultura da mãe, Sheila Mara Oliveira, que morreu de pneumonia em 2018. Com uma enxada nas mãos, ela retira o excesso de mato que se acumulou ao lado desde março. No lugar, colocou três vasos de flores brancas e amarelas. “Dá para perceber que as coisas ficaram meio abandonadas”, conta.

Novo cenário

Além de adiar despedidas, a pandemia também estabeleceu novos hábitos nas visitas aos cemitérios. Em todos os quatro cemitérios visitados pelo Estadão nesta segunda-feira, os funcionários faziam a medição da temperatura. Na Consolação, o cemitério mais antigo da cidade com 162 anos, onde grande parte dos frequentadores chegou de carro, a medição era feita pela janela dos veículos. Frascos de álcool em gel foram oferecidos na entrada da avenida Dr. Arnaldo.

Lá dentro, os cuidados continuavam. Os bebedouros estavam lacrados. Na capela, as missas foram realizadas com cadeiras bastante espaçadas, com apenas metade da capacidade habitual. Todas as janelas estavam abertas e foram realizadas cinco celebrações ao longo do dia para evitar aglomerações. Todos os cemitérios exibiam informações sobre o uso obrigatório de máscara. Banheiros químicos também foram oferecidos nesta segunda.

No cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, localizado na zona leste, os frequentadores aumentaram a lista de objetos indispensáveis na sacola. Além de uma garrafinha de água, a aposentada Maria Ribeiro Santos, de 65 anos, carregava um pote plástico de álcool em gel e até luvas cirúrgicas. "Sei que não tem tanta necessidade, mas foi uma precaução", confessa. 

A pandemia modificou os hábitos até de quem não costuma ir ao cemitério. A família da empresária Nerice Laura Eduardo de Mendonça, moradora da Brasilândia, uma das regiões mais castigadas pela covid na cidade de São Paulo, optou pela cremação quando ela faleceu de covid em março. Nesta segunda-feira, a família decidiu permanecer afastada, cumprindo as regras do isolamento social, a fim de evitar mais perdas. Uma cerimônia familiar deve ficar apenas para o ano que vem.  "Já perdi familiares e sempre tivemos o respeito sobre a data. Neste ano, tudo está mais intenso. Além de perder a minha mãe para a covid, nós ainda não conseguimos fazer uma homenagem. A família continua isolada, com medo de perder mais alguém", confessa Igor Vitor da Silva, filho de Nerice e estudante de Direito de 27 anos. 

Movimento menor que no ano passado

O balanço de entidades do setor foi de um movimento intenso em alguns cemitérios, mas menor que nos anos anteriores. O Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) recomendou que o acesso seja restrito a 60% da ocupação. "Nós tivemos uma movimentação que oscilou entre 20% e 50% do que houve no ano passado. É díficil falar em números absolutos. Existem cemitérios que recebem cinco mil e alguns que chegam a receber 20 mil pessoas", avalia Gisela Adissi,  presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) e da Associação Cemitérios e Crematórios do Brasil (Acembra). Juntas, as duas entidades representam 120 cemitérios no Brasil. 

A disparidade realmente foi grande. No cemitério da Vila Formosa, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) precisou realizar o monitoramento do trânsito na avenida João XXIII para garantir a fluidez diante da enorme fila de veículos na entrada para o velório no início da tarde. No cemitério do Araçá, por exemplo, o movimento cresceu ao longo da manhã com filas de carros na entrada principal, mas ele estava vazio pela manhã. No da Consolação, a estimativa foi de três mil visitantes, um terço do ano passado. O movimento também foi relativamente baixo n

Gisela Adissi afirma que vários fatores explicam a queda de visitas em relação ao ano passado. Um deles foi a antecipação da visitação. Muitas pessoas frequentaram os cemitérios ao longo da semana. Um dos indicadores para quem trabalha no setor é perceber várias flores nos túmulos. E isso foi verificado ao longo da semana. Outro fator é a própria pandemia.

Para evitar aglomerações, a maioria dos 22 cemitérios privados decidiu não realizar cerimônias religiosas nem mesmo em locais abertos. Por outro lado, a maioria deles preparou algum tipo de celebração virtual para o Dia de Finados, como missas e paineis on-line, criando alternativas para quem preferiu evitar as visitas presenciais aos cemitérios. O cemitério Parque das Cerejeiras, na região metropolitana de São Paulo, e "Muitas pessoas ainda têm receio da contaminação", explica. 

O sociólgo Rogério Baptistini, da Universidade Mackenzie, afirma que a baixa visitação reflete o momento de enfrentamento da pandemia no Brasil. "Neste momento de pandemia, a data reflete o espírito do tempo. O fluxo pequeno nos cemitérios não se deve apenas ao isolamento social, mas, também, ao pouco caso para com a vida e seu significado profundo, à crise civilizatória e à quase morte da empatia. Nos bares e nas praias, a vida e a diversão correm solta. O vírus já não existe", opina o estudioso. 

No cemitério São Paulo, o comerciante aposentado Agostinho Ribeiro Neto, de 65 anos, também compartilha essa desesperança. "Acho que as pessoas estão perdendo um pouco da fé. Tenho dois filhos, mas nenhum deles veio comigo", lamentou o antigo vendedor diante do jazigo da família no cemitério da zona oeste da cidade. "


 

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