Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

No dia a dia, a arte de driblar a fiscalização

Músicos reclamam que são vistos como camelôs; mudar de lugar é uma das táticas usadas por eles

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2011 | 00h00

"Muda mas não muda, sempre foi assim", diz, cético, o repentista e embolador Manoel Elias de Freitas, o Peneira, de 56 anos, 36 deles fazendo música nas ruas de São Paulo. "Na semana passada mesmo um PM tomou meus DVDs e mandou que eu saísse do meu canto (na Rua 15 de Novembro, no centro). Depois, voltei."

E então começa a desfiar, caso a caso, como se fosse um repente, que a história se repete a cada gestão. Primeiro fala-se em legalizar, em dar espaço, depois viria a perseguição. "O problema é que confundem a gente com camelô. Não respeitam o artista, não querem nem saber."

Entusiasta da arte dos músicos de rua, o maestro Lívio Tragtenberg vê com reservas as medidas anunciadas pela Prefeitura. "Tenho receio de que, se normatizar muito, haja brechas para a corrupção", diz, lembrando que haverá uma competição por melhores pontos e horários. "Defendo uma liberdade ampla e irrestrita para os artistas."

Desde 2004, Tragtenberg acompanha o som produzido na rua. Montou a Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo, cujo segundo CD, Não Vendemos Fiado, foi lançado neste ano. Nos últimos anos, sua pesquisa musical continuou em outras cidades brasileiras e países como Colômbia, Islândia, Alemanha e EUA. "Em Berlim, por exemplo, há normatização. Mas os pontos e horários são escolhidos por uma prova pública."

Forró. Cansados de serem perseguidos pela fiscalização, os integrantes de um grupo de forró ficaram quatro meses sem dar as caras nas ruas do centro. "Então começou a faltar arroz e voltamos", conta o sanfoneiro Luiz Ramalho da Silva, o Piauí da Sanfona, de 34 anos. Ele é líder da banda Luar do Sertão, que há 9 faz música pelas ruas paulistanas. Gravaram dois CDs. "Tenho firma aberta, registro na Ordem dos Músicos do Brasil e não posso vender nossos discos. A polícia acha que é pirataria, como se estivéssemos pirateando nós mesmos", reclama o sanfoneiro.

Para "não aborrecer a freguesia" - e não dar bandeira para a fiscalização -, a banda não tem lugar fixo. "Ficamos duas horinhas em cada ponto", diz Piauí, que vende uma média de dez CDs por dia.

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