Arquivo/Estadão
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No caminho do tatu (a pé)

A história começa no século XVI, quando o explorador português Brás Cubas atravessou o paredão da Serra do Mar atrás de ouro

O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2015 | 17h35

Entre 1550 e 1560, o explorador português Brás Cubas (1507-1592), fundador de Santos, subiu do litoral em direção ao planalto paulista em busca de ouro. A expedição vasculhava a sesmaria do próprio Cubas, mas não foi muito produtiva. Depois de passar pela Serra do Mar, os enviados especiais do império se depararam com o ribeirão Tatuapé, hoje canalizado, em sua junção com o Rio Grande (Tietê). Brás Cubas e seus homens acamparam no lugar e, consta, estabeleceram ali um rancho de casas, criação de bovinos e porcos, cultivo de cana, hortaliças e uvas. Também ergueram uma capelinha para Santo Antônio. Começava a nascer o Tatuapé.

1. O povoado que era uma uva

No terreno de Brás Cubas, por volta de 1560, funcionava uma vinícola - e essa atividade foi muito importante para a economia da região, na época um punhadinho de casas, até o comecinho do século XX, quando os imigrantes italianos investiam no cultivo de uvas Niágara e convidavam os amigos para saborear cachos e cachos da fruta, à sombra das árvores, no fim de semana. 

2. Terras disputadas

A partir do rancho de Brás Cubas, as terras iam passando de mão em mão (litigiosamente, às vezes), e a região se desenvolvia a passos de tartaruga. Quando o explorador e seu filho precisaram ir para o Rio de Janeiro lutar contra a invasão francesa, o português Rodrigo Álvares se apropriou da fazenda, que no século SVII seria vendida para um padre rico.

3. Sítio do Tatuapé

O padre rico se chamava Matheus Nunes de Siqueira. Ele investia na agricultura e foi quem mandou erguer a Casa do Sítio Tatuapé, que teria várias encarnações, sobretudo como moradia. Abrigou tropeiros e imigrantes. Também foi olaria de telhas e tijolos e tecelagem. Hoje funciona como museu e centro cultural (clique para ver a galeria de fotos).

4. Uvas Marengo

Assim foi (vende, compra, cultiva), até mais ou menos 1870, com a onda do café e da imigração. "Nos últimos anos do século XIX, Benedito Marengo instalou uma grande chácara e nela iniciou o plantio de uva. As mudas vieram dos Estados Unidos. Nas mãos desse italiano as vinhas cresceram de forma prodigiosa, com tanto sucesso que passaram a ter o nome de uvas Marengo" (PONCIANO, Levino; pg 195 de Bairros Paulistanos de A a Z).

5. A transformação que veio dos trilhos 

A ferrovia chegou ao Tatuapé em 1875, prenunciando a transformação industrial da região. As fábricas trariam mais empregos para os imigrantes italianos e portugueses (alternativa ao trabalho rural, que predominava até então) e o bairro veria surgir muitas vilas operárias. 

6. Anália Franco

No começo do século XX, surge a Padaria Lisboa (1913). Na mesma época, talvez um pouco antes, a notória educadora Anália Franco (1853-1919) compra uma chácara na região e emprega ex-prostitutas para trabalhabar na lavoura. Ali ela investe também na educação de órfãos. No futuro, a área do educandário seria transformada no Jardim Anália Franco que hoje conhecemos como residencial de classe média alta que engloba parte do Tatuapé. O terreno tinha uma casa de taipa-de-pilão que existe até hoje e pertenceu ao regente Diogo Antônio Feijó (1784-1843). Nela ele viveu por mais de dez anos. O exemplo de arquitetura bandeirista e representante da "São Paulo de barro" está, infelizmente, fechado para visitação.

7. Indústria e comércio

Os trilhos, o bonde e a época de ouro do café trouxeram imigrantes e fábricas desde as primeiras décadas do século XX. A química Duperial e a Tecelagem Tatuapé, por exemplo, instalaram-se ali. Depois de 1930, muitas olarias tiraram proveito do solo rico em argila. Nos anos 1960, a avenida Celso Garcia, hoje desprestigiada, viveu seu período mais importante. Lojas e cinemas badalados funcionavam por ali. Depois entrou em decadência. Hoje o Tatuapé tem muito de seu comércio confinado em shoppings modernos e super movimentados, mas na rua Tuiuti ainda se gasta muita sola de sapato para explorar o tradicional comércio de rua. 

8. O novo bairro

Nas décadas de 80 e 90, os galpões de fábricas começam a se esvaziar e seus terrenos protagonizam a expansão imobiliária do Tatuapé. Surgem os primeiros grandes condomínios. 

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