No Brasil, Abadía faturava US$ 70 milhões por mês

Arquivos de computadores do megatraficante colombiano denunciam atividades mantidas no País

07 de outubro de 2007 | 23h28

Análise de arquivos que estão em computadores do traficante Juan Carlos Ramírez Abadía, o Chupeta, apreendidos na Colômbia, revela que um dos homens mais procurados do mundo não veio ao Brasil apenas para se esconder. Daqui, ele tinha total controle sobre as atividades do cartel de cocaína do Vale do Norte.   Documentos mostram que, de São Paulo, Abadía administrava os negócios ilegais na Colômbia - do estoque da droga à liberação de dinheiro para subornar autoridades. Segundo o "Fantástico", da TV Globo, praticamente toda semana, homens de confiança do cartel vinham a São Paulo prestar contas ao traficante. Muitas reuniões aconteciam em suítes de hotéis cinco estrelas. O resultado das conversas ficava registrado em computador.   Durante os três anos de esconderijo no Brasil, ele arrecadou US$ 70 milhões por mês, de acordo com dados registrados no equipamento. De uma única rota, em um único mês, o traficante embolsou quase US$ 38 milhões com o transporte de cocaína. Do Brasil, Abadía movimentou a venda de 122 toneladas de droga. O advogado de colombiano, Sérgio Alambert, comentou a descoberta. "Acho que tudo isso tem de ser provado, mas o que mostra é que de fato existia um controle, que a operação continuava funcionando normalmente", afirmou. Depois da análise dos computadores, foram apreendidos US$ 90 milhões na Colômbia. A Justiça confiscou 322 propriedades de Abadia.   As investigações da polícia se concentram agora em uma relação de assassinatos. Planilhas listam muitas mortes sob encomenda, com indicação do valor pago aos assassinos. No computador, também havia caminhos do tráfico da Colômbia para países vizinhos e Estados Unidos. O equipamento registrava, inclusive, posições de fragatas americanas, para que barcos cheios de cocaína passassem longe da fiscalização.   As investigações mostram que Abadía também comprou muita gente no Brasil para não ser incomodado. O traficante afirmou em depoimento a promotores na Justiça Federal em São Paulo que ele e seus principais colaboradores sofreram cinco extorsões de policiais civis no ano passado. Em anotações feitas pelo próprio traficante, estão valores, apelidos e nomes de alguns dos acusados de cobrar propina.   Uma das corrupções se refere ao iate do traficante, avaliado em quase R$ 2 milhões. O barco foi registrado em nome de Daniel Maróstica, testa-de-ferro de Abadía, que também está preso. Daniel não tinha como justificar a compra. Abadía afirma que resolveu o problema dando dinheiro a policiais. "Eles fizeram um cálculo de qual seria a multa se isso viesse à tona e chegaram a um valor de R$ 400 mil. Aí, ele pagou o valor correspondente, que seria, entre aspas, a multa", afirmou Alambert.   Em outra anotação, uma suposta extorsão de policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc). Daniel Maróstica conta em depoimento que, em maio do ano passado, testemunhou o seqüestro do comparsa Henry Edval Lagos, o Patcho, que está foragido. Três homens armados levaram Patcho de uma pista de kart perto de São Paulo. Ainda na versão de Daniel, os supostos policiais telefonaram exigindo dinheiro, que deveria ser entregue no Denarc. Com medo de ir ate lá, o comparsa deixou os dólares dentro de um carro no estacionamento de uma farmácia. Patcho foi libertado num posto de estrada e teria contado para Daniel que apanhou muito dos policiais.   Oito policiais civis de São Paulo, entre eles três delegados, foram afastados no sábado, 6, por suspeita de corrupção. "Quando ele (policial) faz isso, se iguala a quem deveria combater. Ele se torna um marginal e deve ser tratado como tal. O Estado jamais pode se igualar ao marginal. Nem o estado nem seus agentes. Portanto, caso estas denúncias sejam comprovadas, sem dúvida nenhuma, quem assim praticou será tratado como criminoso", comentou o secretário estadual de Segurança Pública de São Paulo, Ronaldo Marzagão.   O comparsa de Abadía contou que o mesmo delegado que estaria envolvido no primeiro seqüestro apareceu no dia em que Ana Maria Stein, mulher de Daniel, foi levada para averiguação ao Denarc. Um grupo de policiais teria pressionado para ficar com o carro do casal, mas a documentação do veículo estava com problemas. Daniel contou que, alguns dias depois, foi procurado por um policial do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) para regularizar a situação do veículo, que foi vendido para saldar a dívida da extorsão. Patcho acabou sendo vítima de mais um seqüestro, revelou Abadía, que disse que negociou a libertação do parceiro de crime.   "Ele foi pagar pessoalmente e entregou na mão de pessoas que não conhece que, para ele, se intitulavam como policiais. Ele disse, inclusive, que em um dos momentos chegaram a oferecer a possibilidade que ele pagasse em mercadoria. Em cocaína", afirmou o advogado do traficante.   Vídeo inédito   Um vídeo inédito mostra Abadía passeando em um shopping de Curitiba. As imagens de outubro do ano passado mostram o traficante disfarçado, com óculos e bigode. Pouco depois, ele encontra comparsas. Com exceção de Patcho, que está foragido, todos foram presos em agosto deste ano pela equipe do delegado Fernando Francischini.   Eles caminham de um lado para o outro com sacolas. Depois, sentam, sem nenhuma pressa, para conversar e tomar um lanche. Desde a primeira suspeita de extorsão em São Paulo até a prisão do traficante, um ano e três meses se passaram. "Não existe em nenhum lugar do mundo crime organizado sem a participação do Estado. O que impressiona é a corrupção policial. É o envolvimento de agentes do Estado em receber propina de perigosos traficantes que há muito já poderiam ter sido presos", opinou o procurador-geral de Justiça do Estado de São Paulo, Rodrigo César Rebello Pinho.

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