No boteco, onde sempre esteve

Um papo em torno de empadinhas e bolinhos de feijão, dias atrás, no evento de gastronomia do caderno Paladar, de O Estado de S. Paulo (ao qual compareci para falar, malícia à parte, de Musas comestíveis), acabou me devolvendo ao clima do que vem a ser a mais sólida instituição da vida em Belo Horizonte: o botequim.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

De fato: se Minas está onde sempre esteve, como disse Otto Lara Resende, deve ser na mesa de um boteco. Na capital, então, nem se discute. Já era assim nos primeiros anos da cidade, no tempo em que o Bar do Ponto fervilhava como "meca boateira" da província. Tempo, também, em que Drummond e outros moleques fizeram do Café Estrela, ali perto, a sucursal montanhesa do Modernismo.

Houve um momento especialíssimo em que o boteco se alastrou por Belo Horizonte. Foi preciso que morresse um dos representantes mais ilustres da categoria, o bar do Grande Hotel, quando o próprio veio abaixo para dar lugar, em 1961, ao Conjunto Archangelo Maletta. Está por se escrever a história do Maletta e da revolução que ele desencadeou nos costumes municipais. Não exatamente com suas escadas rolantes, as primeiras que teve a capital de Minas, mas com uns tantos bares e inferninhos a servir ousadias comportamentais. Tudo muito inocente visto de hoje, mas na época foi um vendaval.

Não tardou o Maletta a soprar sua influência para outros cantos da cidade. Não longe dali, fez legenda o Bucheco, do qual se dizia ser uma filial belo-horizontina dos cafés existencialistas de Saint-Germain-des-Prés. Peças íntimas teriam sido recolhidas ao cabo de crepitante noitada - relato fantasioso que iria deliciar dois frequentadores da casa, Fernando Gabeira e Ivan Angelo.

Mais vanguardeiro haveria de ser o Le Mocó, de Lucy Panicalli, no então pacato bairro da Serra. A mesma Lucy que, num festival de cinema, monopolizou todas as luzes ao irromper na plateia, noite após noite, com roupas - digamos assim - que permitiam ver com nitidez bem maior que a mensagem de muito filme concorrente, a começar do vencedor, o impenetrável Dezesperato, de Sérgio Bernardes Filho. Não por acaso, Le Mocó perdeu o alvará de funcionamento no arrastão do AI-5. O que fez Lucy? Deu uma festa e tocou fogo na casa.

Belo Horizonte carecia de fantasias francesas. Em seguida ao "existencialismo" do Bucheco, um dos jornais da cidade, acometido de vertigem de sobreloja, rotulou de "Quartier Latin mineiro" a Rua dos Inconfidentes e arredores, região sobre a qual se abatera uma epidemia de botecos. Muitos deles, caprichando mais no nome do que no serviço. O Tom Chopim tinha na fachada um violão - entrava-se pela abertura do descomunal instrumento, felizmente sem cordas. No Borako, a troca da vogal, achado de algum concretista do concreto, exigia que se entrasse pelo O. O problema era sair, pois a entrada, circular, não oferecia apoio para as mãos do bebum. Da safra de botequins trocadilhescos apenas um sobreviveu, o Chez Bastião, desfigurado por metástases imobiliárias: o que era um barzinho aconchegante revelou apetite de churrascaria e se pôs a abocanhar espaços vizinhos.

O boteco belo-horizontino dos anos de 1960 era fechado, por vezes claustrofóbico (huis clos, prefeririam dizer, fazendo biquinho, alguns habitués do tal Quartier Latin), correspondendo à atmosfera de uma cidade que aparecia ao olhos do País como bastião da moralidade. Guardava reflexos do Bar do Ponto, onde, conta Pedro Nava, havia quem disfarçasse a pinga na xicrinha de café. Bar a céu aberto era exceção quase escandalosa naquela Beagá em que Savassi era apenas uma padaria na praça Diogo Vasconcelos, pertinho do casarão anormandado onde vivia Tancredo Neves.

Seria preciso esperar um pouco mais para que, sem batismo oficial, o nome Savassi se propagasse, como em outros tempos o cheiro que emanava dos fornos da finada padaria, e passasse a designar toda a região - e nela pipocassem, às dúzias, botecos ao ar livre. Abertos ou fechados, na Savassi ou alhures - a febre segue ardendo e permitiu que Belo Horizonte viesse a ter um botequim, restaurante e assemelhado para cada 150 habitantes. Lá, quem diz "meu boteco" pode estar falando com escritura na mão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.