No aconchegante ninho das Perdizes

Em Perdizes? Nas Perdizes? Cheguei aqui faz mais de 30 anos, e até hoje não sei se moro em ou nas. Prefiro em, mas parece que a outra fórmula tem fundamento histórico. Você deve ter ouvido contar que nesta região da cidade, aí por meados do século 19, havia umas tantas chácaras, e uma delas, ali onde é o Largo Padre Péricles, pertencia a um camarada chamado Joaquim Alves, que vivia de vender garapa. Pois bem, o garapeiro Joaquim tinha uma enteada, de nome Teresa de Jesus Assis, a qual criava no quintal da casa umas perdizes, aves essas que além de ovos e boa carne produziam um alarido de chamar atenção. De onde vem essa barulheira? - indagavam os passantes. "Dos campos das perdizes", informava a vizinhança. Não tardou que o lugar ficasse conhecido como "as Perdizes". Antes assim. Já pensou se a criação da Teresa fosse de outro bicho? Sim, esse aí em que você está pensando.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2011 | 00h00

(Parêntese ornitológico: ou muito me engano - e-mails à redação - ou apenas outro bairro paulistano, o Jaçanã, leva nome de ave. De qualquer forma, Perdizes é avis rara. Raro canto de São Paulo, aliás, onde ainda se pode ouvir bater um sino, sino de verdade, não de gravação, sendo que em certo sentido o mais badalado é o da igreja do Largo do Padre Péricles, o mesmo que em 7 de setembro de 1822 anunciou a fiéis & infiéis a proclamação da Independência, ocorrida uma hora antes).

Perdiz, convenhamos, é ave bem simpática (embora talvez não fosse bem essa a opinião dos vizinhos da Teresa). Ave de família, inclusive - aqui está o Houaiss, que não me deixa mentir: "da família dos tinamídeos", cuja denominação latina é Rhynchotus rufescens. Atende também por cinco outros nomes: enapupês, inhambuapé, inhapupê, napopé e nhampupê. Ainda bem que nenhum desses prevaleceu na hora de batizar o bairro: já pensou morar nas (ou em) Inhambuapés? Saiba, por fim, que se trata de "espécie que sofre muita pressão de caça", e que o macho da perdiz "é responsável pela incubação dos ovos e pelo cuidado com os filhotes". Não, definitivamente essa conotação, digamos, feminista, de marmanjo que divide com a companheira as tarefas domésticas e familiares não vai mal a um bairro onde vive tanta gente de cabeça feita.

Cabeça, frequentemente, feita aqui mesmo em/nas Perdizes - não fosse meu bairro farto em usinas do saber (gostou?), a começar pela PUC, estabelecida desde o fim dos anos 1940 naquele prédio em estilo neocolonial construído no início da década de 1920 para ser convento das carmelitas descalças. Inesquecíveis momentos ali: a inauguração do Tuca, o Teatro da Universidade Católica, em 11 de setembro de 1965, com a montagem de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, espetáculo musicado por um moleque chamado Francisco Buarque de Hollanda; o discurso com que Caetano Veloso reagiu à vaia de quem não o deixou cantar É proibido proibir num festival de MPB em 1968; o mesmo Caetano, em janeiro de 1972, na volta do exílio, ignorando o clamor da plateia que pedia É proibido proibir; a alegre multidão que depois de um show saiu pela madrugada atrás da flauta de Hermeto Pascoal, que nem aqueles ratos (mal comparando!) no rastro do flautista de Hamelin. E também lembranças ruins: a invasão da PUC pela polícia da ditadura, com centenas de prisões, em 1977, e os dois incêndios que em 1984 destruíram o Tuca.

Com tanto fuzuê, com tanta animação, é difícil pensar que Perdizes literalmente não esteve no mapa até que a Prefeitura o entronizasse, em 1897. Depois disso foi só progresso. De uns anos para cá, no entanto, a população distribuída em seus 6,34 km² vem minguando, para pasmo de quem, vendo brotar tanto edifício, tinha como certo exatamente o contrário. Mas é fato: em 1996 éramos 105.534, hoje somos 97.422. Alguém pode me explicar o que acontece? De concreto, sabemos que aqui já não vivem os poetas Décio Pignatari e Haroldo de Campos, este apenas por motivo de falecimento; mas Augusto de Campos, o outro mosqueteiro da aguerridíssima trindade, continua firme. Também se mandaram, faz tempo, o Kaká e o Ney Matogrosso, ex-moradores (eu também) daquele trecho da Monte Alegre em que a rua se interrompe para recomeçar muitos metros abaixo, no pé de uma escadaria. O Ademir da Guia. A Inezita Barroso.

Lamentamos a sangria, é claro. Pelo menos seguem entre nós o Tomzé, apaixonado jardineiro voluntário do prédio onde mora; o fotógrafo Paulo Leite; o poeta Heitor Ferraz; os romancistas Ivan Angelo e Luiz Ruffato; o cronista Antonio Prata. Volta e meia se topa com um deles na rua, nas padarias (cada vez melhores e mais numerosas), na tradicional livraria Cortez ou na acolhedora Zaccara, que além de livros oferece discos e o papo bom do dono, Lúcio Cláudio - perdiziano, criemos a palavra, desde 1957, quando chegou da maternidade. Não falei que este é um bairro de gente de cabeça feita?

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