No abrigo improvisado, o desafio de descobrir por onde recomeçar

Mais de 280 pessoas lotam o ginásio de Teresópolis; em comum entre elas, relatos de perdas de parentes e lares

Marcelo Auler, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2011 | 00h00

No meio do Ginásio Pedro Rage Jahara, conhecido como Pedrão, no centro de Teresópolis, onde mais de 280 vítimas das chuvas estão alojadas, o professor da faculdade de Fisioterapia da cidade Rondineli Barros improvisou uma tala com uma caixa de papelão. Sua intenção foi imobilizar a perna de Viviane Aparecida Pereira Gaspar, que, como outros 1,2 mil moradores do município, perdeu a casa. Ferida, ela foi obrigada a recorrer ao abrigo público oferecido pela prefeitura.

Moradora do bairro do Caleme, uma das regiões mais atingidas de Teresópolis, ela acabou jogada contra uma parede pela força das águas que invadiram sua residência. Depois, derrubada de uma escada, torceu o joelho e o tornozelo, que, segundo o fisioterapeuta, deveriam ser engessados. Na falta de gesso, o voluntário teve de usar sua criatividade para socorrer Viviane.

Ao lado da dupla, a aluna do curso de enfermagem Thais Flora trocava os curativos do agricultor Edmar Gregório da Rosa, cuja casa, no bairro Santa Rita, foi derrubada pela avalanche de terra e mato que desceu de uma montanha, mesmo estando distante de encostas e beiras de rios. Empurrado pela água, o agricultor sofreu cortes nos dois pés, arranhões por todo o corpo e um ferimento mais profundo no pescoço.

Mas tudo isso foi pouco perto das maiores perdas. Sua mulher, Elieze, seu filho Douglas, de 13 anos, e sua neta Larissa, de um mês e meio, morreram na tragédia. Restaram a ele a filha Letícia, de 20 anos, internada em uma unidade hospitalar, e sua caçula, Kailane, de 4, levada para a casa da tia.

"Nem sei o que foi que aconteceu, ninguém passou nada para mim. Agora, só posso contar com a ajuda dos amigos para começar tudo de novo. Minhas 40 mudas de alface, que eu colheria na semana que vem, se perderam", lamentou.

Improviso. Na quadra do ginásio, onde voluntários tentam organizar os colchonetes espalhados dividindo-os por grupos familiares, as pessoas aguardam a passagem do tempo, sem saber direito como tocar a vida daqui para a frente. Dúvida que atormenta a balconista Camila Amorim da Silva. Ontem, ela tentava distrair o filho Daniel, de apenas 2 anos, sob olhares atentos do marido, o comerciário José Joaquim Pereira.

Os três moravam ainda com o pequeno Miguel, de 3 anos, e a família de Camila em uma casa no bairro Caleme. Na hora da chuva, a mãe só conseguiu carregar o caçula. Não teve tempo de resgatar Miguel, que dormia em outro quarto com os tios Guilherme, de 20 anos, Isabele, de 16, Carolina, de 12, Marcelo, de 7, e Igor, de 6. Todos eles morreram soterrados, assim como o pai de Camila, José Carlos Gonçalves da Silva.

Mais mortos. Na casa ao lado, morreram também dois tios e um primo. Sobreviveram a mãe, Márcia de Jesus, de 38 anos, que, com fratura na perna, foi levada para o Hospital de Saracuruna, na cidade de Duque de Caxias, e a irmã, Vitória, de 10 anos.

"Sou nascida e criada ali e nunca houve qualquer risco", conta. "Jamais pensei que passaria por uma tragédia como essa, porque a gente vê na televisão, mas não pensa que pode acontecer com a gente. Não tive tempo nem de socorrer o meu outro filho. Ouvi muitos gritos e pedidos de socorro, mas não podia fazer nada, porque, se fosse ajudar, eu iria junto. A família foi embora. Agora, só fica a lembrança", disse, emocionada.

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