No ABC, bingos tão lotados que nem fecham

Capital reúne casas sofisticadas e populares, com cartelas a R$ 2; aposta pode valer até R$ 5 mil

Renato Machado e Rodrigo Pereira, de O Estado de S. Paulo,

19 de novembro de 2008 | 00h25

Mais de 300 pessoas acompanham em pleno meio-dia os telões e a voz mecânica dos gerentes de mesa do Bingo Estação, no centro de Santo André, anunciar as bolas sorteadas de mais uma "Terça e Quarta do Milhão". O público farto da casa, reaberta em novembro de 2007, garante seu funcionamento ininterrupto - 150 funcionários se revezam em três turnos todos os dias no Bingo. Promoções diárias, como o "Domilhão", aos domingos, ou a "Quinta-feira premiada", prometem prêmios mínimos de R$ 1 mil por rodada ou R$ 1,5 mil a cada hora, a partir das 11 horas da manhã, e assim mantém a casa cheia independentemente da hora do dia.   Veja também Enquete: Você é contra ou a favor dos bingos?  Bingos desafiam a Prefeitura e reabrem em São Paulo Nem súmula do STF unificou sentenças sobre bingos no País Tudo o que já foi publicado sobre os bingos   O gerente, Adilson dos Santos, confirma o sucesso do Bingo Estação. "O volume de pessoas que circula aqui é muito grande, pelo menos mil e quinhentas pessoas entram aqui diariamente", diz. "Vêem porque fica na boca da Estação Celso Daniel e porque sabem que o jogo aqui não é ilegal", explica Santos, comparando a estação de Santo André à estação de metrô da Sé na capital.   Há nove meses administrando o local, Santos mostra que o público, apesar de ser predominantemente idoso, é ágil - grande parte preenche duas ou três "séries" com seis cartelas cada uma por rodada. São duas premiações por vez, ganha quem preenche antes dos demais uma linha e uma cartela completa.   O gerente de outra casa, recém aberta na vizinha São Caetano, reclama dos cerca de 50 apostadores do início da tarde de terça. "É que todo mundo acha que só em Santo André tem bingo funcionando. Isso atraiu muita gente de outros Estados e nosso sucesso acaba sendo lento", explica o gerente, que pediu o anonimato "porque esse negócio de jogo é muito delicado".   Há 19 anos atuando com jogos de azar, ele diz que tentou reabrir casas em São Paulo, mas desistiu por não conseguir alvará de funcionamento. "E aqui no ABC, as prefeituras em geral aceitam", revela, complementando que as casas em São Caetano começaram a ser abertas logo após a eleição. A primeira foi o Bingo Viscondi, reinaugurada no dia 6 de outubro, um dia após o primeiro turno. Funciona a partir do meio-dia, segundo o gerente Mario Ramos Monteiro, e mesmo bem movimentada, ainda está abaixo de sua atual capacidade, de 230 pessoas sentadas. "A casa ainda está amadurecendo", diz Monteiro, que calcula uma média 120 apostadores .   Enquanto a Prefeitura continua batendo cabeça em meio a liminares, leis, decretos e artimanhas que mantêm os bingos funcionamento pela cidade, as casas de pôquer aproveitam para se multiplicar em São Paulo sem qualquer problema com a legislação. Segundo levantamento feito pelo Estado, pelo menos 9 estabelecimentos do tipo operam na região metropolitana, sem nenhum tipo de interferência da Polícia Militar ou das subprefeituras das áreas. A brincadeira com o carteado está longe de envolver apenas feijões - as apostas mínimas vão de R$ 5 até R$ 5 mil, sendo que algumas casas abrem por volta das 15 horas e funcionam durante toda a madrugada.   Muitas dessas casas ficam em locais nobres da capital, como ao lado do Parque do Ibirapuera, na Rua Bela Cintra e na Alameda Barros. A reportagem já havia fotografado no primeiro semestre deste ano a jogatina em duas casas de pôquer (que mais pareciam pequenos cassinos). Em São Bernardo do Campo, dois jovens haviam acabado de perder R$ 6 mil em uma única jogada. Em outra, recém-inaugurada, que fica no segundo andar de um prédio ao lado do Parque do Ibirapuera, empresários posavam de jogadores profissionais e faziam malabarismos com as fichinhas de plástico.   Apesar das denúncias, as duas continuam funcionando normalmente - na terça, por exemplo, elas estavam abertas a partir das 19 horas, com direito a manobrista na porta, pratos refinados para acompanhar a jogatina e até massagem para os jogadores mais estressados. A Secretaria de Subprefeituras afirmou por meio de sua assessoria de imprensa que só pode lacrar os locais se a Polícia Militar constatar a atividade de jogo por dinheiro. A Polícia Militar, por sua vez, não respondeu às questões de reportagem.

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