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Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

No 1º dia da fase emergencial, centro de SP esvaziado tem fila por almoço e passeata por reabertura

Maioria do comércio do entorno da Sé estava fechada na manhã desta segunda; São Paulo vive pior momento da pandemia e registra uma morte por covid-19 a cada 5 minutos

Priscila Mengue e Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 13h47
Atualizado 15 de março de 2021 | 17h44

Enquanto o Estado vive o pior momento da pandemia da covid-19, com média de uma morte a cada cinco minutos e UTIs lotadas, o primeiro dia da fase emergencial parece ter exposto ainda mais a miséria da população da área mais central de São Paulo. Na manhã desta segunda-feira, 15, a maior parte do comércio estava fechada e respeitava as determinações do Governo do Estado. Mas centenas e centenas de pessoas em situação de rua mostravam que não há como existir "fique em casa" debaixo de marquises e em praças.

Antes mesmo das 11 horas da manhã, a distribuição de almoço já formava uma fila na Rua Tabatinguera na quadra de um sindicato. No local, cerca de 1.040 refeições são fornecidas diariamente desde março. “Venho aqui todo dia”, conta Alquécio Albino, de 34 anos, que vive em situação de rua. 

A alusão à fome e à necessidade de conseguir um prato de comida é frequente na região, seja entre quem pede uma doação, seja entre aqueles que são comerciantes ambulantes. “Hoje eu não tirei nem o do almoço ainda”, disse um homem após a recusa de passantes, na região da Rua 25 de Março. 

Por ali, com a maioria do comércio fechada, com exceção de óticas e uma grande loja de departamentos, os poucos compradores são disputados. Alguns comércios de eletrônicos driblam a situação com as portas fechadas, enquanto deixam vendedores a chamar  interessados nas calçadas. 

Desempregada, Adriana Guedes, de 40 anos, foi à região para resolver pendências e aproveitou para comprar alguns itens para casa. “Vazia desse jeito, só vi no começo da pandemia, no ano passado”, comenta. Mesmo tendo perdido a maior parte da renda por causa da crise sanitária, ela apoia a determinação do fechamento diante do agravamento da situação. “É bom, precisa.”

Vendedor ambulante há 20 anos de seus 55 anos, José Hilton Alves, tentava comercializar um produto que retira bolinhas de tecidos. “Não estou vendendo nada. Não tem quem compre. A gente vai viver de quê? Hoje piorou ainda mais. Semana passada dava pra (ganhar o suficiente) almoçar”, desabafa. 

Ele conta já ter sido ameaçado de despejo na pensão em que vive por estar com um mês de aluguel atrasado. Sem outra alternativa de renda e com o fim do auxílio emergencial federal, diz “viver só disso”. “Vou continuar vindo. Não tem o que fazer, não tem outra opção.”

No entorno, dezenas de vendedores de café, água mineral, capas de celular, máscaras e outros artigos repetiam relatos semelhantes. Em meio às portas fechadas, com avisos com números de WhatsApp para delivery, eles são a maioria das pessoas na região, junto à população de rua e alguns entregadores de aplicativo, e estão em número superior aos potenciais compradores.

A situação também motivou uma manifestação de algumas centenas de imigrantes majoritariamente bolivianos, além de paraguaios, equatorianos e de outras nacionalidades. Da região da Feirinha da Madrugada, vestidos de branco, saíram a pé até a Praça da República, onde encontraram outro grupo, que incluía brasileiros, este com um carro de som que tocava o hino nacional, rumo à Assembleia.

“A gente precisa pagar aluguel, água, luz, funcionário”, lamenta Edgar Acarati, de 38 anos, que veio de La Paz há oito anos e tem uma oficina têxtil. “Prefiro morrer de covid do que deixar a minha família com fome”, chegou a dizer.

No início da tarde, o movimento aumento na região da 25 de Março, embora ainda abaixo do normal. O trânsito era principalmente de ambulantes, que estendiam mercadorias diante das lojas fechadas, e do entra e sai de mercadorias. Nas imediações, na rua Barão de Duprat, a movimentação lembrava o movimento de um dia comum de trabalho, com bastante presença de pessoas sem máscara facial.

Na Lapa, calçadas cheias e fila em loja de departamentos

Na zona oeste paulistana, a Lapa teve um fim de manhã de calçadas movimentadas, mesmo com a redução de pública. A região da Rua 12 de Outubro, tradicional ponto de comércio, tinha presença de diversos vendedores ambulantes de meias, roupas e miudezas para eletrônicos e celulares. "O pessoal não aguenta mais ficar trancado dentro de casa, e vem bater perna aqui na rua, comprar mesmo que é bom nada", lamentava uma vendedora.

Entre os comércios, a loja Armarinhos Fernando era uma das poucas abertas. Com aglomeração na entrada, havia fila na calçada, o que também atraía a atenção dos ambulantes. "Só estamos deixando entrar até 60 pessoas por vez", declarou o gerente do espaço. 

Por ali, as lojas fechadas também traziam cartazes com números para venda por delivery. Em uma unidade das Casas Bahia, os anúncios traziam até mesmo uma fotografia dos vendedores.

São Paulo tem uma morte por covid-19 a cada 5 minutos

São Paulo vive o pior momento da pandemia, com aumento de casos, óbitos e internações, além de registrar fila de espera por internação. Na Grande São Paulo, a ocupação de UTI está na média de 90%. São 2.202.983 casos e 64.123 óbitos confirmados pela doença.

Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, São Paulo registrou, em média, uma morte por covid-19 a cada cinco minutos neste mês. Pela primeira vez, desde o início da pandemia, o número de internados na UTI ultrapassou a marca de 10 mil pessoas, enquanto aumentam os relatos de pacientes que morreram à espera de um leito.

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