JF DIORIO/ESTADÃO
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'Ninguém precisa ter medo do mal’, afirma sacerdote

Anderson Guerra, padre da Diocese de Santo Amaro, exorcista há dois anos

Entrevista com

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

Todo sábado e toda segunda-feira, Dona Josefa cobre os cabelos com um lenço, coloca um crucifixo, guarda seu rosário na bolsa e pega um micro-ônibus rumo ao Terminal Varginha, na zona sul de São Paulo. De lá, pega mais duas conduções até o Santuário Nossa Senhora Mãe dos Aflitos, Vila Gea, também na parte sul. Como ela, cerca de 5 mil pessoas frequentam as missas do padre Anderson Guerra de Andrade, de 36 anos, exorcista há dois anos.

Nascido na Diocese de Santo Amaro, onde se ordenou, ele relata a cura da depressão da mãe, que teria sido libertada da influência do demônio pelo padre Marcelo Rossi, que atrai multidões para o vizinho Santuário Mãe de Deus. Em dez anos de sacerdócio, Andrade calcula mais de 2 mil libertações e ao menos três exorcismos. “O primeiro sinal para uma pessoa trabalhar com cura e libertação, sobretudo exorcismo, é não ter medo, é o grande sinal. Ninguém precisa ter medo do mal, porque nós temos um Deus muito mais poderoso que qualquer coisa que há neste mundo.”

Confira a seguir a entrevista do padre:

Como o demônio age?

De diversas formas. Ele pode estar me oprimindo, como se estivesse pressionando contra algo, está próximo. E o que é a possessão? É quando o demônio entra e toma conta da vida da pessoa, e aí, complicou, aí a gente tem de identificar. São passos que vão acontecendo. Primeiro vem uma tentação, depois uma provação, aí posso aceitar: sim ou não. É uma área muito vasta. Nunca peguei um caso igual ao outro nos dez anos que eu tenho de padre, todos são diferentes, mas todos têm uma raiz – e em 90% das vezes é falta de perdão.

Qual é a diferença entre libertação e exorcismo?

Na libertação, eu peço a Deus que ele mande embora o mal, o demônio. No exorcismo, eu dou uma ordem direta ao demônio, com a autoridade que me foi dada pela Igreja. 

Como um padre identifica que uma pessoa está sob influência do demônio?

Tem de ser investigado, fazendo oração, acompanhando a pessoa, atendendo confissão. A Igreja pede que tenha psicólogos junto, por exemplo. De repente pode ser um trauma, a pessoa pode estar com algum surto psicológico. A gente tem de tomar cuidado. Aí você fala que a pessoa está com o demônio, mas não é verdade, faz o quê depois? 

E quais são os procedimentos após essa constatação?

Se você está com uma dor, você chega no médico e fala: ‘Faz uma cirurgia em mim?’ Você chega falando isso para o médico? Você não faz isso. Você chega no médico e diz ‘Estou com uma dor’, e ele vai te examinar, te dar um remédio, um tratamento. Qual é o último recurso, quando não se resolve de nenhum jeito? Cirurgia. O exorcismo é a mesma coisa, é o último recurso dentro da cura e libertação. 

Os exorcismos podem ocorrer durante as missas?

Quando eu proclamo a palavra de Deus com autoridade, a libertação acontece naturalmente. Por isso, nós, da Igreja Católica, não fazemos sensacionalismo, não vivemos de sensacionalismo, de colocar uma pessoa ali na frente e ficar brincando, não é a vontade de Deus. 

Pelo o que o senhor falou, quando ocorrem esses casos, uma pessoa de alguma forma deu margem para isso. Só ocorre se tiver uma interferência?

Sim, perfeito. Uma pessoa que leva uma vida normal, tem defeitos, no geral, não vai ter problema. 

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